Uma oficina na zona norte de Porto Alegre guarda aeronaves que já foram tratadas como sucata militar e agora podem se transformar em atrações abertas ao público. O acervo, que em março reunia aproximadamente 35 exemplares, chegou a 46 aviões e helicópteros, enquanto seu proprietário trabalha para receber visitantes antes do fim do ano.
À frente do projeto está Luciano André Schneider, um restaurador que nunca seguiu carreira militar, mas conseguiu reunir caças da Força Aérea Brasileira (FAB), aeronaves de patrulha marítima e equipamentos associados a conflitos históricos.
A atualização foi divulgada pelo g1 em 1º de novembro. Entre as peças mais curiosas estão um helicóptero com marcas atribuídas a combates no Vietnã, aviões ligados à Guerra das Malvinas e a cabine de um modelo utilizado na Segunda Guerra Mundial.
Tudo começou com R$ 9 mil: de marceneiro a dono de dezenas de aeronaves militares
A paixão de Schneider pela aviação nasceu na infância. Aos oito anos, construiu um pequeno avião de madeira. Dez anos depois, tentou ingressar na FAB, mas sua altura não atendia aos requisitos exigidos na época.
Sem realizar o sonho de seguir carreira militar, trabalhou durante 32 anos como marceneiro. A experiência com ferramentas, estruturas e acabamentos acabaria abrindo caminho para uma atividade completamente diferente.

Em 2016, comprou seu primeiro avião, um Grumman P-16 Tracker, por apenas R$ 9 mil. Mais tarde, trocou a aeronave por um helicóptero Bell 222 e continuou adquirindo equipamentos desativados.
O hobby cresceu até se transformar em sua principal fonte de renda. Hoje, Schneider trabalha com restaurações, comercialização de peças e recuperação de máquinas históricas.
Em março, a revista Tecnologia & Defesa identificou aproximadamente 35 aeronaves em sua coleção, incluindo 15 caças-bombardeiros AMX A-1, modelos F-5 e helicópteros UH-1 Huey.
Helicóptero do Vietnã, aviões das Malvinas e F-5 que pousou sem pilotos integram coleção
Um dos destaques é um helicóptero UH-1H Huey, apresentado pelo colecionador como veterano da Guerra do Vietnã. Segundo Schneider, a fuselagem ainda conserva marcas associadas aos combates.
O modelo tornou-se um símbolo daquele conflito, utilizado no transporte de soldados, munições e feridos, além de missões de resgate em áreas de combate.
Outra raridade são dois Embraer P-95 Bandeirulha, aeronaves brasileiras de patrulha marítima que Schneider afirma terem participado da Guerra das Malvinas, em 1982.
Naquele ano, a FAB cedeu dois P-95 à aviação naval argentina, que os empregou em operações de reconhecimento e vigilância sobre o Atlântico Sul. Schneider afirma possuir o histórico dos exemplares de sua coleção, embora a identificação individual ainda dependa dessa documentação.
O acervo também abriga um F-5FM da FAB envolvido em um acidente em julho de 2016, na Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro.
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Após uma falha no trem de pouso, os dois pilotos se ejetaram e sobreviveram. Sem tripulantes, o caça desceu sobre uma área gramada e deslizou por aproximadamente 100 metros, permanecendo relativamente preservado.

A aeronave foi leiloada em 2024 e acabou nas mãos do restaurador. Sua trajetória até a oficina de Porto Alegre exigiu desmontagem, transporte rodoviário e trabalhos de recuperação.
Schneider também preserva a cabine de um Douglas C-47, modelo de transporte militar empregado durante a Segunda Guerra Mundial. Ele recuperou a estrutura quando a aeronave já estava sendo desmontada para sucateamento.
Após prejuízo de R$ 280 mil nas enchentes, restaurador prepara visitação ainda em 2026
Preservar essas máquinas exige muito mais do que pintura. As aeronaves adquiridas em leilões militares são obrigatoriamente descaracterizadas para impedir seu retorno às condições de voo.
Por isso, Schneider utiliza soldagem, chapas metálicas e componentes de outros exemplares para reconstruir partes danificadas. O objetivo é recuperar a aparência histórica dos equipamentos, sem colocá-los novamente em operação.
O trabalho enfrentou um duro golpe durante as enchentes de maio de 2024. Um depósito utilizado pelo restaurador em Eldorado do Sul ficou sob 4,5 metros de água, provocando prejuízos estimados por ele em R$ 280 mil.
Mesmo depois da inundação, continuou colaborando voluntariamente na preservação de aeronaves históricas da Base Aérea de Canoas.
Agora, Schneider pretende transformar parte de sua oficina, localizada no bairro Humaitá, em um espaço de visitação. A proposta é permitir que crianças, famílias e entusiastas conheçam de perto equipamentos militares normalmente encontrados apenas em bases aéreas e instituições especializadas.
A expectativa é iniciar as visitas antes do fim de 2026, embora ainda não exista uma data definitiva de inauguração.
Se conseguir concretizar o projeto, o antigo marceneiro dará um novo destino a máquinas que atravessaram décadas de história militar: em vez de desaparecerem nos depósitos de sucata, poderão ser conhecidas de perto pelas próximas gerações.