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Senadora pergunta por que a Austrália gastou 1,2 bilhão de dólares em 75 tanques Abrams se o país não usa tanque em guerra desde o Vietnã, e a Defesa responde que não compra equipamento na esperança de usá-lo

Letícia Araújo
Por Letícia Araújo 03/11/2026 às 10:45
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Senadora pergunta por que a Austrália gastou 1,2 bilhão de dólares em 75 tanques Abrams se o país não usa tanque em guerra desde o Vietnã, e a Defesa responde que não compra equipamento na esperança de usá-lo
Tanque M1A2 Abrams do Exército australiano no exercício Southern Jackaroo, em Townsville, Austrália, em junho de 2026. Foto: Exército dos EUA, Abraham Gomez, Wikimedia Commons, domínio público.

A Austrália doou 49 Abrams à Ucrânia, onde um comandante disse ter parado de usá-los por causa dos drones; no Brasil, o plano de blindados do Exército esbarra na falta de verba.

O contribuinte australiano paga A$ 1,2 bilhão (dólares australianos), cerca de R$ 4,58 bilhões, por 75 tanques M1A2 Abrams num país que não leva tanque a uma guerra desde o Vietnã. A senadora Fatima Payman cobrou essa conta da Defesa numa audiência de fiscalização do Senado australiano na quinta-feira, 29 de outubro, segundo o Yahoo News Australia e o site The Noticer. A secretária da Defesa, Meghan Quinn, respondeu que o país não compra equipamento na esperança de usá-lo.

A pergunta chega num momento ruim para o tanque americano. A Austrália doou 49 Abrams mais antigos à Ucrânia, onde um comandante disse ter parado de usá-los por causa dos drones russos. No Brasil, que nunca levou carros de combate a uma guerra, o Exército também mantém um plano de blindados, e ele já enfrenta falta de dinheiro.

Quem perguntou e em que audiência

As audiências do Senate Estimates são sessões em que senadores interrogam ministérios sobre o uso do orçamento. Payman é senadora pela Austrália Ocidental, deixou o Partido Trabalhista em julho de 2024 e lidera o Australia’s Voice, partido que lançou em outubro daquele ano.

As falas a seguir são as reproduzidas pelo Yahoo News Australia, em reportagem de 2 de novembro, e pelo The Noticer, de 30 de outubro. “Compramos esses tanques para vencer guerras, mas não usamos um tanque numa guerra há 50 anos”, disse Payman, segundo os dois sites. Depois, perguntou se a compra servia só para aumentar o gasto de Defesa em proporção do PIB, informa o Yahoo News Australia.

Quanto custam os tanques e quanto custaria o simulador

A conta da compra tem duas versões. Segundo o The Noticer, a sessão partiu de A$ 1,8 bilhão, cerca de R$ 6,86 bilhões, custo inicial do programa, e a cifra foi depois esclarecida como A$ 1,2 bilhão só pelos 75 tanques. “1,8 bilhão de dólares é muito dinheiro”, disse ela, de acordo com o site.

O argumento de Payman era o simulador. A Defesa comprou 16 simuladores de tanque por A$ 60 milhões, cerca de R$ 229 milhões, da empresa Thomas Global Systems, de Nova Gales do Sul, segundo o Yahoo News Australia. Na conta da senadora, 75 simuladores sairiam por cerca de A$ 280 milhões, perto de R$ 1,07 bilhão.

Segundo a Defesa, os simuladores poupam gasto de combustível, munição e manutenção, e treinam a tripulação inteira de uma vez. Payman perguntou como a pasta justifica a diferença de preço entre os dois.

Os reais vêm da cotação de 30/10 do Banco Central. A paridade de fechamento PTAX foi de US$ 0,7035 por dólar australiano, e o dólar fechou a R$ 5,4212 na venda, o que dá R$ 3,8138 por dólar australiano.

A resposta da Defesa: comprar para não ter de lutar

Meghan Quinn rebateu a premissa. “Só para deixar claro, não compramos equipamento na esperança de usá-lo”, disse a secretária, segundo o Yahoo News Australia. “Investimos em capacidade para defender a Austrália e proteger nosso interesse nacional, com a intenção de não ter uma guerra.”

Na mesma resposta, Quinn ligou o tanque à dissuasão. “Um dos meios mais potentes de dissuasão é ter capacidade”, afirmou, de acordo com o The Noticer. Disse ainda que o país trabalha com parceiros para não precisar combater.

A chefe do Exército australiano, Susan Coyle, defendeu os blindados. “São uma parte incrivelmente potente da nossa capacidade e também fazem parte da nossa dissuasão”, disse, segundo o The Noticer. Sobre o preço, disse à senadora: “É muita blindagem”.

O que aconteceu com os Abrams doados à Ucrânia

Em 2025, a Austrália mandou à Ucrânia 49 tanques M1A1 dentro de um pacote de ajuda militar de A$ 245 milhões, cerca de R$ 934 milhões, segundo o Yahoo News Australia. Os carros saíram da frota australiana e foram substituídos pelos M1A2.

Em 4 de setembro, o site americano The War Zone publicou relatos de tripulantes do 425º Regimento de Assalto Independente ucraniano, ouvidos antes pela emissora Hromadske. O comandante de codinome Kubik disse: “Por enquanto, não estamos usando mais esses tanques. Não tem como.”

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Segundo o The War Zone, os Abrams fizeram duas operações em Pokrovsk. Na de 31 de março de 2026, o tanque cumpriu a missão, mas foi atingido por um drone FPV quando a neblina baixou. Um tripulante contou ter sido alvo de mais de 20 drones numa das saídas.

É a fala de um comandante de unidade, não uma decisão oficial do governo ucraniano. O Yahoo News Australia acrescenta que as tripulações relataram consumo de até 700 litros de combustível a cada 100 quilômetros em terreno difícil.

Por que a senadora fala em 50 anos

Os “50 anos” são a conta de Payman. O Yahoo News Australia afirma que tanques australianos não entram em combate desde a Guerra do Vietnã, cita 1971 como o último ano e fala em 55 anos no título da reportagem.

Os últimos tanques do país em combate foram os Centurion enviados ao Vietnã, que operaram de 1968 a 1971. De 1971 até a audiência de 29 de outubro, são 55 anos sem tanque australiano em guerra.

Como é no Brasil

O Brasil nunca levou carros de combate a uma guerra. Na Itália, na Segunda Guerra Mundial, a Força Expedicionária Brasileira usou blindados de reconhecimento M8 Greyhound, não tanques, segundo artigo da revista Ação de Choque, do Exército. O 1º Esquadrão de Reconhecimento recebeu 15 viaturas, empregou 13 e foi a única tropa brasileira a usar blindados naquele conflito.

Hoje, o carro de combate principal do Exército é o Leopard 1A5 BR, que veio de estoques alemães. A compra foi noticiada em 2009 como de 250 tanques pela agência MercoPress, e a fabricante Krauss-Maffei Wegmann falou em 220 ao entregar o primeiro, em 28 de outubro daquele ano.

O dinheiro é o gargalo. O Exército tem um plano de 442 blindados no Plano Plurianual 2024–2027, segundo o monitoramento do programa 6112 pelo Ministério da Defesa, e o Projeto Forças Blindadas soma R$ 30,59 bilhões de 2012 a 2040 no anexo de investimentos do Ministério do Planejamento.

Em 2025, o projeto precisava de cerca de R$ 1,19 bilhão e recebeu R$ 452 milhões, uma falta de R$ 734 milhões registrada pelo Ministério da Defesa. Na prática, o Exército renegociou contratos, mudou prazos de entrega e pediu créditos extras, informa o Ministério da Defesa no monitoramento.

Os 75 tanques novos e os 49 que foram à Ucrânia

Pelas falas reproduzidas pelos dois sites, a Defesa não indicou na audiência troca de tanques por simuladores. Os 16 simuladores da Thomas Global Systems entram como ferramenta de treino das tripulações.

A diferença entre o argumento da senadora e o da secretária fica nos números de cada lado. De um, A$ 1,2 bilhão em 75 tanques que, nas palavras de Quinn, servem para que o país não precise ir à guerra. De outro, 49 Abrams australianos que foram à guerra na Ucrânia e, segundo o comandante Kubik em setembro, ficaram parados.

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