Mais de 150 anos depois do fim da maior guerra já travada na América do Sul, a forma de contar suas origens ainda desperta disputas, feridas nacionais e interpretações profundamente diferentes dos dois lados da fronteira.
Uma frase dita durante um evento sobre Defesa Nacional bastou para recolocar esse passado no centro de uma controvérsia diplomática e histórica.
Deputados e senadores paraguaios acusaram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “distorcer a história” ao afirmar que a Guerra do Paraguai começou quando o país vizinho decidiu invadir o Brasil.
A declaração foi dada em 24 de julho de 2026, durante uma visita às instalações da Avibras Aeroco, em Jacareí, no interior de São Paulo, onde Lula defendia mais investimentos nas Forças Armadas e na indústria brasileira de Defesa.
Declaração provocou reação em Assunção
Durante o discurso, Lula argumentou que o Brasil prefere a paz, mas precisa manter tropas treinadas, armamentos e capacidade tecnológica porque conflitos podem surgir sem aviso prévio.
Para exemplificar o raciocínio, o presidente afirmou que o Paraguai havia decidido invadir o território brasileiro, ocupando Corumbá, e acrescentou que o conflito, inicialmente tratado como algo de menor proporção, durou cerca de cinco anos.
A referência provocou uma resposta oficial do presidente da Câmara dos Deputados do Paraguai, Raúl Latorre.
O parlamentar acusou Lula de tratar com excessiva leveza a maior tragédia da história paraguaia e afirmou que a guerra deixou o país devastado.
Latorre também declarou que os paraguaios conhecem o valor da paz porque a pagaram com o próprio sangue.
A reação não ficou restrita a um único partido ou campo político paraguaio.
Segundo a Deutsche Welle, integrantes do governo, da oposição liberal, do centro e da esquerda criticaram a interpretação apresentada pelo presidente brasileiro.
Parlamentares apontaram intervenção no Uruguai
A principal contestação apresentada pelos paraguaios foi que a fala de Lula começou a narrativa pela invasão do território brasileiro, deixando de fora os acontecimentos anteriores ocorridos no Uruguai.
Latorre afirmou que o conflito teve início depois da intervenção militar do Império do Brasil em território uruguaio, em 1864.
A senadora Esperanza Martínez classificou a declaração como reflexo de uma visão imperialista sobre uma guerra que permanece central na memória nacional paraguaia.
O senador e historiador Eduardo Nakayama também recordou que o Exército imperial brasileiro havia entrado no Uruguai antes de o Paraguai lançar a campanha militar contra Mato Grosso.
O deputado Rubén Rubín, por sua vez, afirmou que Lula tentava permitir que outro país reescrevesse a história conforme seus próprios interesses.
As críticas ganharam força porque, no Paraguai, o conflito é chamado com frequência de Guerra contra a Tríplice Aliança, denominação que enfatiza a união de Brasil, Argentina e Uruguai contra o governo de Francisco Solano López.
A guerra não nasceu de um único episódio
A historiografia trata a origem da Guerra do Paraguai como resultado de uma sequência de rivalidades políticas, territoriais e econômicas na Bacia do Prata.
Brasil, Argentina, Paraguai e os grupos políticos que disputavam o poder no Uruguai mantinham interesses conflitantes sobre fronteiras, navegação dos rios, influência regional e alianças internas.
Em 1864, o Império do Brasil interveio militarmente no Uruguai em apoio a Venâncio Flores, líder do Partido Colorado, contra o governo do Partido Blanco.
O Paraguai protestou e advertiu que a intervenção brasileira alteraria o equilíbrio político da região.
Pouco depois, em novembro de 1864, autoridades paraguaias apreenderam o navio brasileiro Marquês de Olinda, que transportava o novo presidente da província de Mato Grosso.
Em dezembro daquele ano, tropas paraguaias invadiram Mato Grosso e ocuparam localidades como Corumbá.
Meses depois, o Paraguai declarou guerra à Argentina e invadiu a província de Corrientes após o governo argentino negar passagem às tropas de Solano López.
Brasil, Argentina e o novo governo uruguaio formaram então a Tríplice Aliança, em maio de 1865.
Portanto, Lula estava correto ao afirmar que forças paraguaias invadiram o território brasileiro, mas sua frase resumiu uma cadeia muito mais complexa de acontecimentos.
Referência ao Uruguai contém uma imprecisão
No discurso reproduzido por veículos brasileiros, Lula também afirmou que o Paraguai havia invadido, ao mesmo tempo, o Uruguai e a Argentina.
A afirmação exige correção histórica.
O Paraguai invadiu Mato Grosso e, posteriormente, a província argentina de Corrientes, mas não realizou uma invasão equivalente do território uruguaio naquele início de guerra.
Solano López apoiava politicamente o governo Blanco do Uruguai, que foi derrotado após a intervenção brasileira e o avanço das forças de Venâncio Flores.
O Uruguai entrou no conflito ao lado de Brasil e Argentina sob o novo governo colorado.
Assim, a menção de Lula ao Uruguai provavelmente misturou o papel central daquele país na origem da crise com as invasões militares realizadas pelo Paraguai contra Brasil e Argentina.
Número de mortos ainda provoca debate
Raúl Latorre afirmou que a guerra matou 60% da população paraguaia e aproximadamente 90% dos homens do país.
Esses percentuais aparecem em parte da literatura e são amplamente utilizados na memória pública paraguaia para dimensionar a devastação provocada pelo conflito.
As estimativas demográficas, entretanto, permanecem debatidas por historiadores porque os censos do século 19 eram incompletos e diferentes estudos adotam populações iniciais e metodologias distintas.
Existe maior consenso sobre o efeito catastrófico da guerra do que sobre uma porcentagem única e definitiva de mortos.
Além dos falecimentos em combate, epidemias, fome, deslocamentos e destruição econômica ampliaram as perdas sofridas pelo Paraguai.
O conflito ocorreu entre 1864 e 1870 e é considerado o maior confronto armado internacional da história sul-americana.