O professor de Relações Internacionais Gunther Rudzit afirmou que o Brasil está “completamente indefeso” do ponto de vista militar e defendeu uma reforma estrutural das Forças Armadas antes de qualquer simples ampliação do orçamento.
A avaliação foi apresentada em 24 de julho de 2026, durante entrevista ao programa Hora H, da CNN Brasil, após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defender mais investimentos em Defesa para impedir interferências externas no país.
Rudzit é professor de Relações Internacionais da ESPM e atua nas áreas de Defesa, segurança internacional e geopolítica.
Diagnóstico extremo não é avaliação oficial
A expressão “completamente indefeso” representa a interpretação do professor sobre a capacidade militar brasileira.
O Brasil mantém tropas, bases, aeronaves, navios, submarinos, blindados, sistemas de vigilância e projetos estratégicos em funcionamento.
A crítica de Rudzit está direcionada à diferença entre as dimensões do país, as ameaças possíveis e os meios disponíveis para responder a um conflito de maior intensidade.
Durante a entrevista, o professor afirmou que o próprio ministro da Defesa, José Múcio, já havia reconhecido publicamente as limitações brasileiras ao tentar chamar a atenção da classe política.
Múcio tem defendido um orçamento mais estável e afirmou, em audiência no Senado, que o Brasil concentra mais da metade do Produto Interno Bruto da América Latina, mas suas Forças Armadas não aparecem necessariamente entre as três principais da região.
Em março de 2026, o ministro voltou a defender a elevação dos investimentos militares, mencionando que o país aplicava aproximadamente 1% do PIB em Defesa e deveria buscar um patamar mínimo próximo de 2%.
Mais dinheiro não resolveria tudo
Rudzit afirmou que aumentar o orçamento sem modificar a organização e as prioridades do setor poderia apenas preservar os problemas existentes.
“Não adianta só jogar mais dinheiro e continuar mais do mesmo”, declarou o professor à CNN Brasil.
A reforma defendida pelo especialista envolveria planejamento de longo prazo, integração entre as três Forças, definição clara de ameaças e escolha dos projetos que deveriam receber prioridade.
Também seria necessário equilibrar os recursos destinados ao efetivo, à manutenção dos equipamentos atuais e à aquisição de novas capacidades.
O Brasil possui uma estrutura formal de planejamento conjunto.
O Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas assessora o ministro da Defesa em operações integradas, planejamento estratégico e acompanhamento dos setores nuclear, cibernético e espacial.
Por isso, a crítica sobre ausência de planejamento central não deve ser entendida como inexistência literal de órgãos ou documentos.
O questionamento está na capacidade dessa estrutura de transformar estratégias nacionais em prioridades orçamentárias estáveis e coordenadas durante diferentes governos.
Os comandos da Marinha, do Exército e da Aeronáutica possuem estruturas próprias e administram individualmente os recursos recebidos dentro do orçamento do Ministério da Defesa.
Discurso encontra bloqueios no orçamento
Rudzit também apontou uma contradição entre a defesa pública de mais investimentos militares e as restrições impostas pelo próprio governo ao orçamento de 2026.
A CNN Brasil informou que, segundo o professor, a Defesa teria sofrido a maior retenção na rodada mais recente de contenção de despesas.
O governo anunciou em maio um bloqueio geral de R$ 23,7 bilhões no Orçamento da União para respeitar as regras fiscais.
Na Força Aérea, um documento obtido pelo Metrópoles mostrou que aproximadamente R$ 1,45 bilhão foram bloqueados em combustíveis, manutenção, suprimento aeronáutico e projetos estratégicos.
A FAB alertou que os recursos remanescentes não garantiam a operação planejada de suas aeronaves até o fim de 2026.
O bloqueio atingiu aproximadamente R$ 800 milhões do programa dos caças Gripen e R$ 215,8 milhões relacionados ao KC-390 Millennium.
A situação oferece um exemplo concreto do problema apontado por Rudzit: projetos modernos podem existir, mas perdem efetividade quando faltam recursos para voar, treinar, manter e repor materiais.
Guerras mudaram as prioridades militares
O professor citou os conflitos na Ucrânia e no Oriente Médio como sinais de que a guerra moderna exige planejamento diferente daquele adotado em décadas anteriores.
Drones, mísseis de longo alcance, guerra eletrônica, inteligência por satélite e ataques contra infraestruturas passaram a ocupar papel central nas operações.
Rudzit já havia destacado que essas tecnologias estão redefinindo estratégias e alterando o equilíbrio entre forças convencionais.
Além dos equipamentos mais sofisticados, os conflitos demonstraram a importância de estoques de munição, peças de reposição, defesa antiaérea e capacidade industrial para substituir rapidamente o material perdido.
Comprar um sistema militar sem garantir manutenção, treinamento e fornecimento de munições durante sua vida útil pode gerar uma capacidade apenas parcial.
Terras raras exigiriam projeto de décadas
A entrevista também abordou a disputa internacional por minerais críticos e terras raras.
Esses elementos são utilizados em radares, mísseis, motores elétricos, sensores, equipamentos eletrônicos, satélites e outras tecnologias civis e militares.
O Brasil possui uma das maiores reservas conhecidas de terras raras, mas ainda ocupa uma posição limitada nas etapas de separação, refino e fabricação de componentes de maior valor.
A China domina uma parcela significativa do processamento global de terras raras e de outros minerais críticos, concentrando entre 70% e 90% da capacidade de beneficiamento de diversos materiais.
Segundo Rudzit, criar uma cadeia brasileira competitiva levaria décadas e dependeria de uma política de Estado que sobrevivesse às mudanças de governo.
O desafio não envolve apenas abrir minas.
Seria necessário desenvolver processos químicos, infraestrutura industrial, profissionais especializados, compradores permanentes e tecnologias capazes de transformar o material bruto em produtos estratégicos.
O processamento das terras raras também pode gerar rejeitos, consumo elevado de água e riscos de contaminação, exigindo licenciamento e controles ambientais rigorosos.
Especialistas ouvidos em estudos recentes apontam justamente os gargalos tecnológicos e ambientais como obstáculos à expansão dessa indústria no Brasil.
O alerta do professor combina, portanto, duas críticas diferentes: a insuficiência dos recursos disponíveis e a ausência de continuidade capaz de transformar investimentos isolados em uma estrutura militar sustentável.
Força onde somente os oficias generais tem excelentes salários, o restante da tropa vive de bico, o que se espera.