A disputa pela hegemonia mundial da intligência artificial (IA) é uma das novas faces da guerra tecnológica travada entre os Estados Unidos e a China pelo domínio de ferramentas cada vez mais avançadas e que já são empregadas nas mais diversas vertentes da economia e até nas estratégias militares, equipando armamentos e sistemas de defesa.
Em um novo capítulo dessa verdadeira guerra fria, os Estados Unidos preparam uma nova ofensiva que tem por objetivo obrigar países aliados a escolherem entre cadeias de suprimentos e tecnologias americanas ou chinesas quando o assunto é o desenvolvimento de inteligência artificial — e o Brasil pode ser pego, mais uma vez, no meio do fogo cruzado.
Segundo informações divulgadas pela agência Reuters, o governo dos EUA prepara uma carta com comunicado formal a parceiros indicando que a participação simultânea na iniciativa tecnológica Pax Silica, do Departamento de Estado americano, e ao mesmo tempo em iniciativas chinesas concorrentes poderá ser considerada incompatível com uma relação privilegiada de cooperação com Washington.
O movimento acontece ao mesmo tempo em que o governo brasileiro anunciou investimentos de cerca de R$ 2,3 bilhões para fortalecer seu ecossistema de infraestrutura para inteligência artificial, dividindo projetos entre empresas dos Estados Unidos e da China, em um movimento que ressalta a tentativa de equilibrar relações com as duas potências.
O que é a iniciativa Pax Silica?
A Pax Silica (Paz pelo Silício, uma referência ao material essencial de chips de computadores) é uma iniciativa estratégica liderada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, lançada em dezembro de 2025, para garantir e assegurar cadeias de suprimentos globais voltadas para a era da IA e de tecnologias avançadas.
A iniciativa prevê esforços com paises aliados para estabelecer parcerias em áreas estratégicas da cadeia de suprimentos de tecnologia global que não se resumem à IA, mas estão intimamente interligados a ela, incluindo ações em áreas como:
- Plataformas de software
- Modelos de infraestrutura de ponta
- Conectividade de informações e redes
- Computação e semicondutores
- Manufatura avançada, logística de transporte
- Refino e processamento de minerais e energia
A iniciativa até o momento conta com 25 países signatários. Na América do Sul, Argentina e Chile são os principais apoiadores. Por enquanto, o governo brasileiro adotou uma postura de não adesão automática aos blocos tecnológicos liderados por Washington e à Pax Silica, buscando manter autonomia e diálogo com diferentes potências, inclusive com a China, grande parceira do setor.
A ofensiva dos EUA para dar um “ultimato” aos países aliados acerca de seu alinhamento na corrida pela IA vai além do bloco, e é dirigida aos 35 signatários de uma Declaração sobre Oportunidades em IA, assinada em junho, que inclui outros países que manifestaram interesse em alinhar a cooperação em IA com Washington.
Ao pressionar os países a escolher um lado, os EUA esperam privar a China de recursos na corrida para desenvolver a IA mais sofisticada, que poderia ser usada para obter vantagem militar ou econômica. Ao mesmo tempo, o governo de Donald Trump aumenta a pressão sobre parceiros que possuem sólido relacionamento com Pequim, como é o caso brasileiro.
Brasil pode ficar no centro dessa disputa
A pressão americana acerca da corrida por IA coloca países que desejam manter relações simultaneamente com Washington e Pequim diante de um dilema estratégico.
A lógica da Pax Silica é construir uma rede de países suficientemente integrada para proteger cadeias consideradas essenciais para a segurança econômica e tecnológica dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a China busca ampliar sua própria influência por meio de iniciativas internacionais de inteligência artificial e de modelos mais baratos e acessíveis.
Isso significa que países que adotarem tecnologias chinesas e americanas simultaneamente poderão enfrentar dificuldades crescentes para participar de determinados projetos, especialmente aqueles ligados a tecnologias sensíveis, semicondutores avançados, infraestrutura de computação e segurança nacional.
O Brasil é um dos países que podem sentir diretamente os efeitos dessa competição por adotar uma estratégia de diversificação tecnológica, além de deter recursos estratégicos para a indústria tecnológica dos EUA e da China, com grandes reservas de minerais críticos e terras raras.
R$ 2,3 bilhões para IA com tecnologia dos EUA e da China
O pacote de investimentos em inteligência artificial anunciado na quinta-feira, dia 20 de agosto de 2026, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva prevê R$ 1,3 bilhão para financiar um projeto de infraestrutura de supercomputação no Rio de Janeiro desenvolvido em parceria com as chinesas Huawei e iFlytek.
Segundo o governo, a estrutura será usada principalmente para desenvolver modelos de linguagem de uso geral e aplicações setoriais. O objetivo principal é desenvolver modelos de linguagem e ferramentas de IA focados no idioma português e nas necessidades do país.
Separadamente, cerca de R$ 1 bilhão será destinado a um edital para um supercomputador que o Brasil espera ver entre as dez máquinas mais poderosas do mundo para processamento de inteligência artificial.
O equipamento será instalado no Rio Grande do Norte, escolhido, segundo o governo, por seu forte potencial energético. A estrutura será desenvolvida no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo (PAX), em Macaíba, na Grande Natal, e prevê mais de 50 mil núcleos de processamento e consumo elétrico estimado em 4 megawatts.
Enquanto os investimentos no Rio de Janeiro têm destaque para as chinesas Huawei e iFlytek, o supercomputador da região Norte deve ter tecnologia majoritariamente americana, como a gigante Nvidia apontada como fornecedora mais provável, conforme informou a revista Exame.

Os recursos para o grande investimento tecnológico estão previstos no CT-Infra, instrumento de financiamento de infraestrutura de pesquisa, e o projeto integra o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA). O supercomputador previsto para o Rio Grande do Norte poderá ser usado por:
- Empresas e startups, para desenvolvimento e treinamento de modelos próprios;
- Universidades e centros de pesquisa, para projetos de inteligência artificial e ciência de dados;
- Instituições governamentais, em aplicações nas áreas de saúde, agricultura, clima, indústria e serviços públicos;
- Profissionais e estudantes, com ampliação de oportunidades de formação em áreas de alta qualificação.
Brasil tem disputa por insumos críticos para a cadeia de IA
Enquanto busca manter uma postura equilibrada diante das disputas entre Washington e Pequim pela hegemonia tecnológica da IA e áreas relacionadas, o Brasil também ocupa uma posição estratégica como fornecedor de insumos cruciais para a cadeia tecnológica global.
O ponto central é que a disputa global pela inteligência artificial não acontece apenas em torno de chips e modelos de linguagem. Ela começa muito antes, na mineração dos materiais necessários para fabricar ímãs, motores, componentes eletrônicos, equipamentos de energia e sistemas avançados de computação.
O Brasil aparece nesse cenário principalmente por causa de suas reservas de terras raras e outros minerais críticos, justamente no momento em que Estados Unidos e China tentam controlar e diversificar suas cadeias de suprimentos.
O país possui a segunda maior reserva conhecida de terras raras do planeta, atrás apenas da China, mas responde por menos de 1% da produção mundial, segundo dados de 2026 citados pela Reuters. Com uma pobre capacidade de processamento desses recursos, o Brasil tem sido alvo de investidas do capital estrangeiro no setor, levantando debates sobre a soberania.
Em 2026, duas grandes operações envolvendo o capital estrangeiro chamaram atenção no setor: a aquisição do grupo Serra Verde, maior mineradora de terras raras do Brasil, pela USA Rare Earth, em uma transação de aproximadamente US$ 2,8 bilhões (R$ 13,9 bilhões), e poucos dias depois, a aquisição pela australiana Power Minerals das operações da Mineração Terras Raras S.A., que detém o depósito de terras raras do Morro do Ferro, em Oliveira, interior de Minas Gerais.
As movimentações chegaram a gerar constestação no Supremo Tribunal Federal (STF), conforme noticiou a revista Sociedade Militar em abril.
Enquanto o objetivo das novas ofensivas americanas é fazer com que o maior número possível de países adote o ecossistema tecnológico dos Estados Unidos, a China, por sua vez, tenta ampliar sua própria influência oferecendo alternativas capazes de competir em preço e desempenho.
Para países emergentes como o Brasil, Índia, países do Oriente Médio e nações do Sudeste Asiático, o desafio será preservar autonomia enquanto negociam com os dois maiores polos tecnológicos do mundo diante da nova face da disputa global pela hegemonia da IA e de seus setores relacionados.
Receba nossas notícias diretamente, clique abaixo e entre no nosso grupo