O ator foi reprovado na primeira tentativa de alistamento por estar cinco quilos abaixo do peso mínimo, voltou depois de engordar e terminou a carreira militar como general de brigada da Reserva da Força Aérea, com uma última missão de combate no Vietnã
Em fevereiro de 1941 James Stewart subiu ao palco para receber o Oscar de melhor ator por Núpcias de Escândalo.
Era o ator mais bem pago do estúdio, com um contrato que lhe rendia cerca de 6 mil dólares por mês, segundo a Air & Space Forces Magazine.
No mês seguinte ele estava num quartel do Exército dos Estados Unidos recebendo 21 dólares.
Reprovado por cinco quilos
A primeira tentativa de alistamento deu errado.
Stewart tinha um metro e noventa e era magro demais para a tabela oficial, cerca de cinco quilos abaixo do mínimo exigido para a altura.
Ele foi comer.
O peso mínimo era condição de aptidão física, não formalidade, porque a tripulação de bombardeiro voava horas em cabine despressurizada, a temperaturas de vinte graus negativos, respirando oxigênio por máscara.
Voltou à junta de inspeção depois de ganhar peso e desta vez passou, incorporado como soldado raso em março de 1941, nove meses antes de os Estados Unidos entrarem na guerra.
O caminho até a farda foi por vontade própria, o oposto do que aconteceu com o guitarrista que virou paraquedista depois de um juiz lhe dar a escolha entre a cadeia e o alistamento.
Já sabia voar antes de entrar
Stewart tinha uma vantagem que a maioria dos recrutas não tinha.
Era piloto civil desde os anos 1930, com brevê e centenas de horas registradas, pago com o dinheiro do cinema.
Isso encurtou a passagem pela tropa.
Ele foi comissionado segundo-tenente e recebeu as asas de piloto militar em 31 de dezembro de 1941, três semanas depois de Pearl Harbor.
Em seguida qualificou-se em aviões bimotores e depois em quadrimotores, a categoria dos bombardeiros pesados.
A briga para sair da sala de aula
O problema seguinte foi convencer a Força Aérea a deixá-lo lutar.
Um ator premiado valia mais, na conta dos relações públicas, vendendo bônus de guerra e treinando pilotos em território americano do que arriscando a vida sobre a Europa.
Stewart passou meses como instrutor e insistiu até conseguir a transferência para uma unidade de combate.
Chegou à Inglaterra em novembro de 1943 como comandante do 703º Esquadrão de Bombardeio, do 445º Grupo, sediado em Tibenham, no condado de Norfolk.
Vinte missões no B-24
O avião era o B-24 Liberator, quadrimotor pesado, lento, mal defendido nos flancos e detestado por boa parte das tripulações que voaram nele.
As formações do 445º Grupo atacavam alvos industriais na Alemanha em plena luz do dia.
Voar de dia era escolha deliberada do comando americano, que apostava na precisão do bombardeio visual e pagava por isso um preço em tripulações.
A defesa alemã respondia com caças e com artilharia antiaérea, além dos foguetes e bombas voadoras que atingiam a Inglaterra, entre eles as bombas V-1 de motor pulsojato.
Stewart voou 20 missões de combate.
Foi condecorado com a Distinguished Flying Cross e com a Air Medal, e citado pela frieza no comando das formações sob fogo antiaéreo.
No início de 1944 foi promovido a oficial de operações do 453º Grupo de Bombardeio, cargo em que passou a planejar e conduzir missões de grupo inteiro em vez de um único esquadrão.
A troca de unidade acabou salvando a estatística dele.
Em 27 de setembro de 1944 o 445º Grupo, que Stewart havia comandado no nível de esquadrão, foi interceptado sobre Kassel e perdeu 25 dos 35 bombardeiros que decolaram naquele dia.
Foi a maior perda de um único grupo americano em uma só missão em toda a guerra.
De soldado raso a coronel em quatro anos
Em 29 de março de 1945 Stewart foi promovido a coronel e recebeu o comando da 2ª Ala de Bombardeio.
Do soldado raso de março de 1941 ao coronel de março de 1945 foram exatos quatro anos.
É uma progressão que a estrutura de tempo mínimo de posto normalmente não permite, e que só a expansão brutal da força aérea americana durante a guerra tornou possível.
Ele voltou aos Estados Unidos coronel e recusou toda a publicidade em cima do serviço prestado.
Não aceitou fazer filme sobre a própria guerra e evitou o assunto em entrevistas pelo resto da vida.
A carreira que não parou com a paz
Stewart voltou a filmar e ao mesmo tempo continuou na Reserva da Força Aérea.
Manteve qualificação, cumpriu períodos de instrução e subiu na hierarquia da reserva ao longo de duas décadas.
Em 23 de julho de 1959 foi promovido a general de brigada da Reserva da Força Aérea dos Estados Unidos.
Outros artistas americanos serviram e voltaram para a vida civil sem manter vínculo militar, e alguns fizeram o percurso inverso, com vinte anos na Força Aérea antes da fama.
A última missão foi no Vietnã
Em 20 de fevereiro de 1966 o general de brigada James Stewart embarcou num B-52F do 736º Esquadrão de Bombardeio, da 454ª Ala, com indicativo GREEN TWO.
Era uma missão Arc Light, o nome dos bombardeios estratégicos americanos no Sudeste Asiático.
O voo durou 12 horas e 50 minutos e foi a última missão de combate da carreira militar dele.
O bombardeiro que ele ocupou naquele dia é o mesmo modelo que segue voando seis décadas depois, e o B-52 enfrenta hoje problemas de manutenção e de sucessão.
Aquele mesmo ano de 1966 e o seguinte produziram, no chão, histórias como a de um sargento cercado numa colina que resistiu a dezenas de ataques.
A reforma aos 60 anos
James Stewart passou para a inatividade em 31 de maio de 1968, ao atingir a idade limite de 60 anos, com 27 anos de serviço contados desde o alistamento como soldado raso.
Em 1985 o presidente Ronald Reagan o promoveu a general de divisão na lista de inativos.
Ele morreu em 1997, aos 89 anos, e foi enterrado com honras militares.
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