A geração própria cobria menos de 4% da demanda elétrica da Força em 2023 e a meta para 2026 é chegar a 25%, com outros 80 projetos prontos para execução, segundo o diretor de Obras Militares
Num pelotão especial de fronteira o combustível não chega de caminhão-tanque.
Chega de barco, subindo rio por dias, ou de avião, num campo de pouso de terra batida que depende do tempo.
Cada litro de diesel entregue em Surucucu ou em Tunuí-Cachoeira custa muito mais do que o preço da bomba, porque o que se paga é o transporte.
É por isso que a conta de energia solar do Exército não é uma conta ambiental.
Os números do balanço
A Força tem 27 usinas fotovoltaicas instaladas, segundo a CNN Brasil.
Elas não estão concentradas numa região só, e as primeiras a sair do papel foram justamente as usinas na Amazônia, onde a alternativa era queimar combustível trazido de longe.
O investimento acumulado é de R$ 43 milhões.
O retorno declarado é de R$ 7,8 milhões por ano em energia elétrica e diesel que a instituição deixa de comprar.
No ritmo atual, o conjunto se paga em pouco mais de cinco anos e meio.
Outros 80 projetos estão prontos para execução, e a maioria das instalações já inclui armazenamento em bateria para uso à noite.
A bateria é o item que muda o caráter da instalação.
Sem armazenamento, o painel só substitui consumo enquanto há sol e a unidade continua dependendo do gerador ao anoitecer.
Com banco de baterias, a usina cobre o pico noturno de iluminação e refrigeração, que é quando o quartel realmente consome.
A curva que dobra a cada ano
Em 2023 a geração própria cobria menos de 4% da necessidade elétrica do Exército.
Em 2024 subiu para 6,1%.
A projeção para 2025 é de 18,2% e a meta para 2026 é de 25% da demanda total.
De 2023 a 2026 a participação da geração própria se multiplica por mais de seis.
Quem apresenta os dados é o general Francisco Eduardo Lima de Medeiros, diretor de Obras Militares, o setor responsável pela infraestrutura das organizações militares em todo o país.
Sete pelotões e 360 mil litros
A parte mais sensível do programa está na fronteira.
Sete pelotões especiais receberam usinas fotovoltaicas com armazenamento: Auaris e Surucucu, em Roraima, Fortuna e Palmarito, em Mato Grosso, Pato Índio, em Mato Grosso do Sul, Tiriós, no Pará, e Tunuí-Cachoeira, no Amazonas.
O resultado é a redução de aproximadamente 360 mil litros de diesel por ano.
Esse combustível deixou de precisar de comboio, de balsa e de voo logístico.
A Força também testa módulos móveis de painel com bateria de lítio para reduzir a exposição de comboios em deslocamento de tropa.
Por que o diesel é um problema militar
O gerador a diesel resolve o problema elétrico e cria dois outros.
Ele faz barulho, o que denuncia posição, e ele exige reabastecimento periódico, o que gera um fluxo previsível de veículos entre a retaguarda e a linha de frente.
Comboio previsível é alvo.
O mesmo raciocínio vale fora de combate, no dia a dia de uma guarnição que fica a dias de distância do centro de suprimento mais próximo.
Menos viagem significa menos desgaste de embarcação, menos hora de voo e menos militar empenhado em tarefa de transporte.
Em qualquer manual de logística militar, a linha de suprimento é o ponto mais vulnerável de um destacamento isolado.
Cortar consumo de combustível reduz frequência de comboio, e reduzir frequência de comboio reduz risco e custo ao mesmo tempo.
Há ainda o custo invisível do próprio transporte, porque parte do diesel que sobe o rio é queimada pelo barco que o leva.
Quanto mais longe o destino, maior a fração do carregamento que se perde no caminho.
Num pelotão de fronteira amazônica esse desconto pode transformar o litro entregue no ponto mais caro do orçamento de manutenção da guarnição.
De onde sai o dinheiro
O programa não é bancado por uma fonte única.
Parte vem do orçamento da própria Força e parte vem de emendas parlamentares.
Uma terceira via são as parcerias com concessionárias de energia, que por obrigação regulatória destinam 0,25% da receita operacional líquida a projetos de eficiência energética.
O Exército entra como beneficiário desses programas.
Foi por esse caminho que a Força assinou parceria com uma concessionária para instalar usinas em quartéis e reduzir desperdício.
Não é só fronteira
A lista de instalações inclui o Quartel-General do Exército, em Brasília, o Hospital Geral de Curitiba e o Hospital de Guarnição de Santiago, no Rio Grande do Sul.
Hospital militar é um caso à parte porque o consumo é contínuo, 24 horas, com equipamento crítico que não pode desligar.
A conta de luz de uma unidade dessas é uma das maiores de qualquer organização militar.
No mesmo conjunto de esforços das Forças Armadas, o Hospital das Forças Armadas cobriu o estacionamento com painéis para abater a própria fatura.
A Amazônia é o caso extremo
Nos pelotões da faixa de fronteira norte não existe rede elétrica para conectar.
Não há linha de transmissão, não há concessionária e não há vizinho para dividir custo.
O sistema tem que ser autônomo, com painel, banco de baterias e gerador de reserva, dimensionado para uma guarnição pequena que precisa de rádio, refrigeração de vacina e iluminação sem interrupção.
É o motivo pelo qual a faixa de fronteira norte entrou na fila antes de boa parte dos quartéis do Sudeste.
O que falta para bater a meta
Chegar a 25% da demanda em 2026 significa tirar do papel uma fatia relevante dos 80 projetos já prontos para execução.
O gargalo declarado não é técnico, é orçamentário.
Cada usina depende de recurso liberado, de licitação concluída e de obra executada dentro do exercício financeiro.
Em unidade remota entra ainda a logística da obra, porque painel, estrutura e bateria precisam chegar pelo mesmo rio que traz o diesel.
Os 27 conjuntos já instalados somam potência suficiente para mostrar que o modelo funciona, e a economia anual declarada de R$ 7,8 milhões é o argumento que a Diretoria de Obras Militares leva para pedir o próximo lote.
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