O Comando de Fronteira Rio Negro e o 5º Batalhão de Infantaria de Selva percorreram cerca de mil quilômetros de rios e igarapés e fizeram mais de mil abordagens, e em 16 de agosto o Comando de Fronteira Japurá e o 17º BIS prenderam um homem investigado também por homicídios
Na Cabeça do Cachorro não existe rodovia para bloquear.
Não há posto de fiscalização na beira da estrada, porque não há estrada.
Tudo o que entra e sai daquele pedaço do Amazonas entra e sai pela água, e quem quiser controlar o fluxo precisa botar barco na água também.
Foi o que o Exército fez na Operação Jaguaretê, com 400 militares e 110 embarcações.
Mil quilômetros de rio e mais de mil abordagens
A força-tarefa percorreu cerca de mil quilômetros de rios e igarapés na região conhecida como Cabeça do Cachorro, o extremo noroeste do Amazonas, onde o Brasil encosta ao mesmo tempo na Colômbia e na Venezuela.
O saldo declarado foi de mais de mil abordagens e revistas em embarcações.
Cada uma delas exigiu aproximação, atracação e verificação de carga e de documento em pleno rio.
Numa faixa de fronteira em que o barco é o único meio de transporte, revistar embarcação é o equivalente a montar blitz de rodovia.
A diferença é que a viatura policial estaciona no acostamento e a lancha militar precisa alcançar o alvo em movimento, no meio da correnteza.
A operação foi conduzida pelo Comando de Fronteira Rio Negro e pelo 5º Batalhão de Infantaria de Selva, subordinados ao Comando Militar da Amazônia.
Esse comando sustenta guarnições isoladas em toda a região com logística extrema e engenharia pesada.
Cucuí e Yauaretê, os dois pontos de estrangulamento
O patrulhamento se concentrou em Cucuí e Yauaretê, duas localidades coladas na faixa de fronteira.
Não é escolha aleatória.
São pontos por onde o tráfego fluvial obrigatoriamente passa, o equivalente amazônico de um pedágio.
Quem controla a curva do rio ali controla o acesso a toda a bacia acima.
Cucuí fica no alto Rio Negro, quase na tríplice divisa com Colômbia e Venezuela.
Yauaretê está no Uaupés, na rota que liga o lado colombiano ao interior do município de São Gabriel da Cachoeira.
A rede de postos avançados do Exército na região segue esse mesmo desenho, com 28 pelotões sem estrada para chegar.
As 110 embarcações
O número que define a operação não é o de militares, é o de barcos.
Foram 110 embarcações de pequeno e médio porte, mais apoio aéreo com aeronaves de asa rotativa.
Numa faixa de fronteira sem malha viária, a embarcação é a viatura.
O helicóptero cobre a distância que o barco não vence a tempo e leva a equipe ao ponto onde a informação chegou.
A conta logística de manter esse conjunto navegando por semanas envolve combustível, peça de reposição e ração levados pelo mesmo rio que a tropa patrulha.
Mais de 50 comunidades visitadas
A operação não foi só repressiva.
Mais de 50 localidades ribeirinhas e indígenas receberam a visita das equipes, em atividades de aproximação e apoio a populações que vivem isoladas.
Essa parte não rende apreensão, mas rende informação.
Numa região sem cobertura policial permanente, o morador da margem é quem sabe qual barco passou de madrugada e qual não devia estar ali.
O vínculo entre a tropa e as comunidades da Cabeça do Cachorro é construído nesses deslocamentos e não nas apreensões.
A prisão na calha do Japurá
Em 16 de agosto de 2026 o mesmo esforço produziu resultado em outro rio.
O Comando de Fronteira Japurá e o 17º Batalhão de Infantaria de Selva prenderam um suspeito na calha do Japurá, em ação com órgãos de segurança pública.
Segundo o batalhão, o detido também é investigado por homicídios ao longo do rio.
Não se trata apenas de transporte de carga ilícita, mas de disputa territorial armada.
O Japurá nasce na Colômbia, entra no Brasil pelo Amazonas e desemboca no Solimões.
É corredor natural entre a área produtora e o eixo principal de escoamento.
Quem desce o Japurá chega ao Solimões, e quem chega ao Solimões chega a Manaus.
Interromper a viagem antes desse encontro é o que a tropa chama de atacar o elo logístico em vez do ponto final.
Por que o Exército está nessa conta
O combate ao tráfico é atribuição de polícia.
O que o Exército aporta na faixa de fronteira é alcance, e alcance ali significa capacidade de permanecer semanas longe de qualquer base.
Tropa de infantaria de selva tem embarcação, rádio de longo alcance, sanitário de campanha e capacidade de sustentar a própria alimentação em mata fechada.
Delegacia de interior não tem.
O comandante militar da Amazônia já apontou a narcoguerrilha colombiana como a principal ameaça na região, acima da tensão com a Venezuela.
O treinamento veio depois da patrulha
Encerradas as missões de campo, a 2ª Brigada de Infantaria de Selva conduziu uma semana de capacitação técnica em São Gabriel da Cachoeira, entre 27 e 31 de julho.
O programa incluiu atendimento tático a feridos em combate, controle de hemorragias, remoção de vítimas em ambiente de selva e tiro simulado a curta distância.
Também entraram monitoramento de cenário e planejamento de patrulha.
É o ciclo padrão da Força na região, em que a lição aprendida na operação vira instrução antes de a tropa voltar ao rio.
A engenharia entra junto
O esforço de presença na faixa de fronteira amazônica não se resume a patrulha armada.
Boa parte do trabalho é abrir e manter o acesso.
Na mesma região, uma equipe pequena do Exército levantou uma ponte em 39 dias num trecho de difícil acesso, restabelecendo ligação por terra onde a mata havia cortado.
Cada quilômetro de acesso recuperado reduz a dependência do transporte fluvial e encurta o tempo de resposta a uma denúncia.
O que continua
A Jaguaretê é descrita pelo Exército como esforço contínuo, e não como operação de data marcada.
A previsão é manter ciclos de patrulha e ações coordenadas com foco em pontos críticos da calha do Japurá e de seus afluentes.
Para quem vive e trabalha nos rios da região, o efeito prático é fiscalização mais frequente, com revista em embarcação e checagem de carga.
Registros divulgados na mesma faixa apontam apreensões recentes de 252 quilos e de mais de 123 quilos de skunk em Benjamin Constant.
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