Entre muralhas de pedra, antigas baterias de artilharia e uma capela secular, a Fortaleza de Santa Cruz da Barra permite percorrer quase cinco séculos de história diante de uma das vistas mais impressionantes da entrada da Baía de Guanabara
Na entrada da Baía de Guanabara, em um ponto de onde é possível enxergar o Rio de Janeiro do outro lado do mar, existe uma construção militar que atravessou Colônia, Império e República e continua em uso pelo Exército Brasileiro. É a Fortaleza de Santa Cruz da Barra, em Jurujuba, Niterói, um complexo histórico com mais de 7 mil metros quadrados de área construída e um acervo de 45 canhões dos séculos XVIII e XIX.
O lugar, porém, não está escondido atrás dos portões de uma instalação inacessível. A fortaleza mantém programa de visitação turística e pode ser conhecida de terça-feira a domingo, das 9h às 16h, com saídas de visitantes a cada hora, segundo as informações atualmente divulgadas pelo portal oficial de turismo de Niterói.
É justamente essa combinação que torna Santa Cruz diferente de muitos monumentos históricos brasileiros: o visitante não encontra apenas ruínas de uma antiga posição defensiva. Entra em uma fortificação que permanece vinculada ao Exército enquanto percorre muralhas, baterias, celas e espaços construídos ao longo de séculos.
A história começou no século XVI, quando franceses tentaram ocupar a Baía de Guanabara
A origem histórica do lugar remonta ao período da França Antártica, tentativa francesa de estabelecer uma colônia na região da Baía de Guanabara a partir de 1555.
Há, porém, uma diferença importante entre a tradição histórica associada ao local e a cronologia das estruturas que chegaram aos nossos dias. O portal Visit Niterói informa que a pedra fundamental remonta a 1555, enquanto o IPHAN registra que a Fortaleza de Santa Cruz começou a ser erguida em 1578, já como ponto fundamental da defesa do Rio de Janeiro.
A Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha também relaciona a origem do complexo a 1555, quando Nicolas Durand de Villegagnon improvisou uma posição para proteger a entrada da baía. Após a retomada portuguesa, a estrutura foi ampliada e recebeu o nome de Nossa Senhora da Guia.
Ao longo das décadas seguintes, aquele ponto ganhou importância por uma razão que fica evidente para quem observa sua localização: controlar a passagem diante de Santa Cruz significava ajudar a controlar a própria entrada da Guanabara.
No início do século XVIII, o complexo havia alcançado uma dimensão suficiente para ser considerado pelo IPHAN a maior fortaleza da América Portuguesa. Sua configuração irregular atual é resultado justamente das diferentes ampliações e programas defensivos acumulados ao longo do tempo.
Mais de 7 mil m² e 45 canhões ajudam a contar a transformação da fortaleza
As dimensões ainda impressionam.
As muralhas foram erguidas com pedras cortadas e assentadas manualmente, e o complexo possui mais de 7 mil metros quadrados de área construída. O acervo divulgado pelo turismo de Niterói reúne 45 canhões dos séculos XVIII e XIX.
Não são apenas as peças de artilharia que sobreviveram.
Dentro da fortaleza está a Capela de Santa Bárbara, cuja origem remonta a 1612, além de uma imagem da santa datada do século XVIII. O conjunto preserva ainda galerias, baterias, muralhas e outros espaços que permitem observar como uma posição defensiva colonial foi sendo modificada conforme as necessidades militares mudavam.
A localização explica boa parte dessa longevidade. Santa Cruz ocupa um promontório junto ao canal de entrada da Baía de Guanabara, passagem utilizada pelas embarcações que seguem para o Porto do Rio de Janeiro.
Durante séculos, portanto, os canhões não estavam ali apenas para compor uma fortificação imponente. Eles cobriam uma das entradas marítimas mais estratégicas do país.
De invasões estrangeiras a revoltas brasileiras
A Fortaleza de Santa Cruz não permaneceu apenas como elemento de dissuasão.
Segundo a Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, o complexo esteve ligado à defesa contra investidas francesas e holandesas e voltou a aparecer em episódios internos da história brasileira.
Na Revolta da Armada, participou das ações contra o Forte de Villegagnon. Durante o movimento tenentista, foi empregada contra o Forte de Copacabana.
Santa Cruz também funcionou como prisão política.
Entre os personagens históricos mantidos no local estão José Bonifácio de Andrada e Silva e Bento Gonçalves. Hoje, parte desses antigos ambientes pode ser conhecida durante a visita. A Marinha destaca entre as atrações acessíveis as celas, áreas inferiores da fortificação, espaços associados à antiga prisão e a Capela de Santa Bárbara.
Há ainda um episódio muito mais recente do que a aparência colonial das muralhas poderia sugerir: o último disparo atribuído à fortaleza ocorreu em 1955, contra o cruzador Tamandaré.
Ou seja, entre a origem no século XVI e seu último emprego armado no século XX, Santa Cruz atravessou quase toda a formação política do Brasil.
A fortaleza continua nas mãos do Exército, mas o turista pode entrar
Ao contrário de uma construção histórica transformada integralmente em museu, Santa Cruz continua sendo utilizada pelo Exército Brasileiro. O próprio IPHAN destaca que a instituição mantém no local um programa de visitação turística.
Para quem pretende conhecer o complexo, o portal Visit Niterói informa atualmente visitação de terça-feira a domingo, das 9h às 16h, com saídas a cada hora. Visitas de grupos devem ser previamente agendadas.
O ingresso inteiro informado é de R$ 10, enquanto a meia-entrada custa R$ 5 para os grupos contemplados pelas regras divulgadas. Crianças de até 12 anos, pessoas com mais de 60 anos, pessoas com deficiência e outros públicos especificados pelo programa têm gratuidade. Como horários e valores podem ser alterados, é recomendável consultar as informações oficiais antes do deslocamento.
A fortaleza fica na Estrada Eurico Gaspar Dutra, s/nº, em Jurujuba, Niterói.
Há ainda algo que nenhum inventário de canhões consegue traduzir completamente: a posição geográfica. Das áreas abertas do complexo, o visitante observa a entrada da Guanabara e parte da paisagem do Rio de Janeiro — exatamente o cenário que determinou a importância militar daquele pedaço de rocha durante séculos.
É essa sobreposição que transforma Santa Cruz em um destino pouco convencional. O mesmo lugar que nasceu da disputa pelo controle da Baía de Guanabara permanece ocupado pelo Exército quase cinco séculos depois, mas hoje recebe pessoas interessadas justamente em caminhar pelas estruturas construídas para impedir que outros entrassem.
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