Aconteceu em 4 de outubro de 1918, na floresta de Argonne, na França; o pombo morreu em junho do ano seguinte, está empalhado no Smithsonian e em 2021 um teste de DNA mostrou que o Exército tinha errado até o sexo do animal.
Em 4 de outubro de 1918, dentro de uma ravina na floresta de Argonne, na França, cerca de 550 soldados americanos estavam cercados havia dois dias.
Sem comida, sem água limpa e sem linha telefônica.
Naquela manhã a artilharia americana começou a cair em cima deles.
A única forma de avisar era um pombo.
O batalhão que sumiu do mapa
A tropa era formada por unidades da 77ª Divisão e entrou para a história com o apelido de Batalhão Perdido.
Ela não estava perdida no sentido literal: avançou mais rápido que os flancos, ficou isolada atrás das linhas alemãs e não conseguiu recuar.
O comandante era o major Charles Whittlesey, advogado em Nova York antes da guerra.
Cada tentativa de mandar mensageiro a pé terminava com o soldado morto ou capturado.
O cerco durou de 2 a 8 de outubro de 1918.
A tropa cavou buracos rasos na encosta e passou aqueles dias sob fogo de morteiro e de metralhadora.
O fogo dos próprios canhões
A artilharia americana tinha coordenadas erradas e começou a bater exatamente sobre a posição do batalhão.
Fogo amigo é o pior cenário possível para tropa cercada, porque não há para onde correr.
Whittlesey precisava informar a posição real e pedir que parassem.
Restavam os pombos-correio, o meio de comunicação que sobrava quando o fio era cortado e o rádio de campanha não existia.
Bicho a serviço de comunicação era rotina de guerra, e o emprego militar de animal nunca acabou: o cão de guerra brasileiro começa a ser treinado ainda filhote.
Os dois primeiros não chegaram
O primeiro pombo solto foi abatido logo depois de levantar voo.
O segundo também caiu.
Sobrou um único animal na gaiola, um macho de plumagem escura chamado Cher Ami, nome francês que significa querido amigo.
Ele tinha sido criado por criadores britânicos e doado ao serviço de comunicações do Exército americano.
O serviço de pombos do Exército americano tinha centenas de aves em campanha, cada uma treinada para voltar a um pombal específico.
O animal não leva mensagem para um destino: ele volta para casa, e a casa é o posto de comando.
Quando a unidade se deslocava, o pombal ia junto, montado em carroça ou caminhão.
Havia até pombal rebocável, fabricado sob encomenda para o Exército americano e puxado por veículo motorizado.
A mensagem
O bilhete enrolado na cápsula presa à perna do pombo dizia a posição da tropa e terminava com um pedido direto.
Whittlesey escreveu que a própria artilharia estava despejando fogo em cima deles e pediu, pelo amor de Deus, que aquilo parasse.
Era a última carta na mão de 550 homens.
A cápsula de alumínio com o papel enrolado ia presa a uma das pernas do animal, num anel apertado com alicate.
O animal levantou voo e levou uma rajada quase imediatamente.
Vinte e cinco minutos
A distância até o posto de comando era de 40 quilômetros.
Cher Ami cobriu esse trecho em 25 minutos.
Chegou ao pombal do quartel-general e caiu.
A cápsula com a mensagem estava presa ao que restava da perna dele.
Quarenta quilômetros em vinte e cinco minutos dá uma média próxima de 96 quilômetros por hora.
Pombo-correio treinado alcança essa velocidade em voo direto, e é por isso que exército nenhum abriu mão do recurso enquanto o rádio não ficou confiável.
O estado em que chegou
O pombo tinha sido atravessado por um tiro no peito.
Estava cego de um olho.
E uma das pernas pendia presa apenas por um tendão, com o tubo da mensagem ainda amarrado nela.
Os militares do posto conseguiram mantê-lo vivo e mandaram fazer uma perna de madeira para o animal.
Na Segunda Guerra, um urso virou soldado do Exército polonês, com número de série e posto.
Cento e noventa e quatro saíram andando
O bombardeio parou.
O cerco só foi rompido dias depois, quando as tropas aliadas alcançaram a posição.
Dos cerca de 550 homens que tinham ficado presos ali, 194 saíram da floresta pelo próprio pé.
O resto morreu, foi ferido ou foi capturado.
Whittlesey recebeu a Medalha de Honra pelo comando naqueles dias.
Ele morreu em 1921, três anos depois, sem nunca ter falado publicamente sobre o episódio.
A Croix de Guerre
O governo francês concedeu ao pombo a Croix de Guerre com palma, condecoração militar de bravura.
O Exército americano passou a tratá-lo não como um bicho, mas como veterano.
Animal em serviço militar recebendo honraria não é exceção histórica, e a prática de manter bicho em unidade continua viva no Brasil com o carneiro Nicodemus.
Cher Ami morreu em 13 de junho de 1919, menos de um ano depois do voo.
Por que pombo e não rádio
A pergunta óbvia hoje é por que um exército dependia de aves.
Em 1918 o rádio portátil de campanha ainda era pesado, frágil e escasso, e a comunicação de trincheira era feita por fio telefônico que a artilharia cortava toda hora.
O pombo voava alto, rápido e não deixava rastro para o inimigo seguir.
Foi um dos vários animais empregados naquela guerra, ao lado de cães, cavalos e mulas, num cotidiano de lama e improviso que a tropa registrava até em jornais escritos pelos próprios soldados.
O erro que durou um século
O corpo do pombo foi empalhado e está exposto no Museu Nacional de História Americana, do Instituto Smithsonian.
Os registros do Exército classificavam o animal como fêmea, e o museu o descrevia como macho.
Em 2021 o Smithsonian fez teste de DNA em amostras de tecido do próprio exemplar empalhado.
O resultado confirmou que Cher Ami era macho, corrigindo um dado que estava errado na ficha havia mais de cem anos.
A perna de madeira feita pelos militares em 1918 também está no acervo.
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