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Cercados havia dois dias e bombardeados pela própria artilharia, 550 homens soltaram o último pombo que tinham; Cher Ami levou um tiro no peito, perdeu um olho e voou 40 quilômetros em 25 minutos com a perna pendurada, e 194 saíram vivos da floresta

Cercados havia dois dias e bombardeados pela própria artilharia, 550 homens soltaram o último pombo que tinham; Cher Ami levou um tiro no peito, perdeu um olho e voou 40 quilômetros em 25 minutos com a perna pendurada, e 194 saíram vivos da floresta
A cápsula metálica presa à perna era todo o sistema de comunicação disponível quando o fio telefônico caía. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial: não existe fotografia de Cher Ami em resolução utilizável no acervo de domínio público.
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Aconteceu em 4 de outubro de 1918, na floresta de Argonne, na França; o pombo morreu em junho do ano seguinte, está empalhado no Smithsonian e em 2021 um teste de DNA mostrou que o Exército tinha errado até o sexo do animal.

Em 4 de outubro de 1918, dentro de uma ravina na floresta de Argonne, na França, cerca de 550 soldados americanos estavam cercados havia dois dias.

Sem comida, sem água limpa e sem linha telefônica.

Naquela manhã a artilharia americana começou a cair em cima deles.

A única forma de avisar era um pombo.

O batalhão que sumiu do mapa

A tropa era formada por unidades da 77ª Divisão e entrou para a história com o apelido de Batalhão Perdido.

Ela não estava perdida no sentido literal: avançou mais rápido que os flancos, ficou isolada atrás das linhas alemãs e não conseguiu recuar.

O comandante era o major Charles Whittlesey, advogado em Nova York antes da guerra.

Cada tentativa de mandar mensageiro a pé terminava com o soldado morto ou capturado.

O cerco durou de 2 a 8 de outubro de 1918.

A tropa cavou buracos rasos na encosta e passou aqueles dias sob fogo de morteiro e de metralhadora.

O fogo dos próprios canhões

A artilharia americana tinha coordenadas erradas e começou a bater exatamente sobre a posição do batalhão.

Fogo amigo é o pior cenário possível para tropa cercada, porque não há para onde correr.

Whittlesey precisava informar a posição real e pedir que parassem.

Restavam os pombos-correio, o meio de comunicação que sobrava quando o fio era cortado e o rádio de campanha não existia.

Bicho a serviço de comunicação era rotina de guerra, e o emprego militar de animal nunca acabou: o cão de guerra brasileiro começa a ser treinado ainda filhote.

Os dois primeiros não chegaram

O primeiro pombo solto foi abatido logo depois de levantar voo.

O segundo também caiu.

Sobrou um único animal na gaiola, um macho de plumagem escura chamado Cher Ami, nome francês que significa querido amigo.

Ele tinha sido criado por criadores britânicos e doado ao serviço de comunicações do Exército americano.

O serviço de pombos do Exército americano tinha centenas de aves em campanha, cada uma treinada para voltar a um pombal específico.

O animal não leva mensagem para um destino: ele volta para casa, e a casa é o posto de comando.

Quando a unidade se deslocava, o pombal ia junto, montado em carroça ou caminhão.

Havia até pombal rebocável, fabricado sob encomenda para o Exército americano e puxado por veículo motorizado.

A mensagem

O bilhete enrolado na cápsula presa à perna do pombo dizia a posição da tropa e terminava com um pedido direto.

Whittlesey escreveu que a própria artilharia estava despejando fogo em cima deles e pediu, pelo amor de Deus, que aquilo parasse.

Era a última carta na mão de 550 homens.

A cápsula de alumínio com o papel enrolado ia presa a uma das pernas do animal, num anel apertado com alicate.

O animal levantou voo e levou uma rajada quase imediatamente.

Vinte e cinco minutos

A distância até o posto de comando era de 40 quilômetros.

Cher Ami cobriu esse trecho em 25 minutos.

Chegou ao pombal do quartel-general e caiu.

A cápsula com a mensagem estava presa ao que restava da perna dele.

Quarenta quilômetros em vinte e cinco minutos dá uma média próxima de 96 quilômetros por hora.

Pombo-correio treinado alcança essa velocidade em voo direto, e é por isso que exército nenhum abriu mão do recurso enquanto o rádio não ficou confiável.

O estado em que chegou

O pombo tinha sido atravessado por um tiro no peito.

Estava cego de um olho.

E uma das pernas pendia presa apenas por um tendão, com o tubo da mensagem ainda amarrado nela.

Os militares do posto conseguiram mantê-lo vivo e mandaram fazer uma perna de madeira para o animal.

Na Segunda Guerra, um urso virou soldado do Exército polonês, com número de série e posto.

Cento e noventa e quatro saíram andando

O bombardeio parou.

O cerco só foi rompido dias depois, quando as tropas aliadas alcançaram a posição.

Dos cerca de 550 homens que tinham ficado presos ali, 194 saíram da floresta pelo próprio pé.

O resto morreu, foi ferido ou foi capturado.

Whittlesey recebeu a Medalha de Honra pelo comando naqueles dias.

Ele morreu em 1921, três anos depois, sem nunca ter falado publicamente sobre o episódio.

A Croix de Guerre

O governo francês concedeu ao pombo a Croix de Guerre com palma, condecoração militar de bravura.

O Exército americano passou a tratá-lo não como um bicho, mas como veterano.

Animal em serviço militar recebendo honraria não é exceção histórica, e a prática de manter bicho em unidade continua viva no Brasil com o carneiro Nicodemus.

Cher Ami morreu em 13 de junho de 1919, menos de um ano depois do voo.

Por que pombo e não rádio

A pergunta óbvia hoje é por que um exército dependia de aves.

Em 1918 o rádio portátil de campanha ainda era pesado, frágil e escasso, e a comunicação de trincheira era feita por fio telefônico que a artilharia cortava toda hora.

O pombo voava alto, rápido e não deixava rastro para o inimigo seguir.

Foi um dos vários animais empregados naquela guerra, ao lado de cães, cavalos e mulas, num cotidiano de lama e improviso que a tropa registrava até em jornais escritos pelos próprios soldados.

O erro que durou um século

O corpo do pombo foi empalhado e está exposto no Museu Nacional de História Americana, do Instituto Smithsonian.

Os registros do Exército classificavam o animal como fêmea, e o museu o descrevia como macho.

Em 2021 o Smithsonian fez teste de DNA em amostras de tecido do próprio exemplar empalhado.

O resultado confirmou que Cher Ami era macho, corrigindo um dado que estava errado na ficha havia mais de cem anos.

A perna de madeira feita pelos militares em 1918 também está no acervo.

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Carlos Menezes

Carlos Menezes

Meu nome é Carlos Menezes e escrevo sobre geopolítica, defesa, aviação, economia e setores estratégicos, buscando traduzir temas complexos de forma clara, direta e conectada ao impacto que eles têm no dia a dia do Brasil e do cidadão comum. No Sociedade Militar, meu compromisso é entregar informação prática, contexto relevante e análises que ajudam o leitor a enxergar além da manchete.