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A única estrada entre o Brasil e a Guiana passa por uma ponte que o Brasil pagou sozinho, por 5 milhões de dólares, e é o único ponto de fronteira terrestre das Américas onde o motorista troca de mão, da direita para a esquerda

A única estrada entre o Brasil e a Guiana passa por uma ponte que o Brasil pagou sozinho, por 5 milhões de dólares, e é o único ponto de fronteira terrestre das Américas onde o motorista troca de mão, da direita para a esquerda
A ponte internacional sobre o rio Tacutu, vista do lado de Lethem, na Guiana. Foto: JodyB, via Wikimedia Commons (CC BY 3.0).
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A obra foi aberta ao tráfego em 31 de julho de 2009 e inaugurada em setembro daquele ano, com Lula e Bharrat Jagdeo. Do lado guianense o asfalto acaba, e restam 460 quilômetros de laterita até Georgetown, vencidos em 14 a 16 horas.

Quem sai de Boa Vista pela BR-401 roda cerca de 120 quilômetros de asfalto até Bonfim, atravessa uma ponte sobre o rio Tacutu e entra na Guiana.

Do outro lado da ponte, o motorista precisa passar para a pista da esquerda.

É a única fronteira terrestre das Américas onde isso acontece.

Uma obra de 5 milhões de dólares paga por um país só

A ponte custou 5 milhões de dólares e a conta foi integralmente do Brasil.

Ela foi aberta ao tráfego em 31 de julho de 2009 e inaugurada oficialmente em 14 de setembro do mesmo ano, com a presença dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Bharrat Jagdeo.

O nome oficial, dado pela Lei 11.918, de 9 de abril de 2009, é Ponte Prefeito Olavo Brasil Filho, mas quase ninguém a chama assim.

Ela é a ponte do Tacutu, e é a única ligação rodoviária entre o Brasil e a Guiana.

O Brasil tem 16,9 mil quilômetros de fronteira com dez países, e a linha com a Guiana passa de 1.600 deles.

Em toda essa extensão existe uma única ponte internacional, e ela está aqui.

O viaduto que inverte o trânsito

A Guiana foi colônia britânica e herdou a mão inglesa, com o trânsito pela esquerda.

O Brasil dirige pela direita.

A solução foi construir um viaduto de conversão do lado guianense, onde as pistas se cruzam em desnível e cada veículo sai no lado correto do país em que está entrando.

Não existe outro ponto de fronteira terrestre em todo o continente americano onde essa troca seja obrigatória.

É um detalhe de engenharia que resume a distância cultural entre dois vizinhos que dividem 1.600 quilômetros de linha e quase nenhuma história em comum.

O asfalto termina na ponte

Do lado brasileiro há rodovia federal pavimentada até a margem do rio.

Do lado guianense começa a estrada de Lethem a Georgetown, com cerca de 460 quilômetros de piso de laterita atravessando a savana do Rupununi e a floresta de Iwokrama.

A viagem leva de 14 a 16 horas, exige veículo com tração nas quatro rodas fora da estação seca e passa por trechos longos sem posto de combustível, sem povoado e sem sinal de telefone.

As travessias de igarapé viram obstáculo sério no período de chuva.

Ou seja: a fronteira está ligada, mas o país do outro lado não está.

Por que isso importa agora

A Guiana deixou de ser o vizinho irrelevante.

O país saiu do zero e chegou a 903 mil barris por dia em menos de dez anos, e virou a economia que mais cresce no mundo.

Ao mesmo tempo, é alvo da reivindicação venezuelana sobre o Essequibo, que corresponde a dois terços do território guianense.

O Brasil está no meio, geograficamente, e mandou 28 blindados para Roraima por causa dessa equação.

Todo esse peso estratégico se apoia, no plano terrestre, em uma ponte de 5 milhões de dólares e numa estrada de barro.

A rodovia de quase 1 bilhão de dólares

A Guiana decidiu resolver isso com dinheiro de petróleo.

O projeto prevê pavimentar os cerca de 500 quilômetros entre Georgetown e Lethem, divididos em quatro trechos, com aproximadamente 50 pontes.

O custo estimado é de quase 1 bilhão de dólares e a previsão mais otimista de conclusão é 2030.

Pronta, a viagem de Georgetown até a ponte do Tacutu cairia para cerca de quatro horas.

O ministro guianense de Obras Públicas resumiu o efeito para o lado brasileiro: carga que hoje leva 21 dias descendo pelo Amazonas até um porto passaria a chegar em 48 horas.

O trecho guianense é dividido em quatro lotes porque atravessa terrenos muito diferentes, da planície costeira à floresta fechada de Iwokrama e depois à savana.

O número de pontes previstas, cerca de cinquenta, dá a medida de quantos rios e igarapés a estrada precisa vencer.

O que muda para Roraima

Roraima é o estado brasileiro sem saída para o mar e sem ferrovia, ligado ao resto do país por uma única rodovia federal que sobe de Manaus.

Uma estrada pavimentada até a costa guianense e o porto de Palmyra, em construção no nordeste do país vizinho, daria a Boa Vista um acesso ao Atlântico que hoje não existe.

É o tipo de mudança que reorganiza logística, comércio e também presença militar.

Uma fronteira por onde não passa nada exige um tipo de vigilância.

Uma fronteira por onde passa carga em 48 horas exige outro.

O que atravessa a ponte hoje

O fluxo atual é modesto e quase todo comercial no varejo.

Lethem funciona como ponto de compra para guianenses que atravessam atrás de produto brasileiro, de alimento a material de construção, porque o abastecimento vindo de Georgetown demora dias e chega mais caro.

No sentido contrário, moradores de Bonfim cruzam para trabalho, atendimento e comércio.

Toda a operação de controle, com Polícia Federal, Receita e vigilância sanitária, foi montada para um movimento desse tamanho.

Uma rodovia pavimentada mudaria a escala do problema de fiscalização de uma vez só.

A linha que quase ninguém atravessa

Bonfim e Lethem formam um daquele conjunto de cidades gêmeas coladas na fronteira, com circulação diária de moradores dos dois lados.

O movimento é local, feito de compras, atendimento médico e trabalho, e não de comércio internacional.

A ponte existe há mais de quinze anos e nunca chegou perto de operar como corredor logístico, porque não havia estrada do outro lado para justificar o percurso.

Foi uma obra construída antes da demanda, e ficou esperando o país vizinho ter motivo para usá-la.

O petróleo deu esse motivo.

A vigilância que já está lá

Enquanto a rodovia não sai do papel, a fronteira segue sendo coberta pelo que já existe.

Há tropa em Bonfim, há a estrutura do Comando Militar do Norte e há a rede de pelotões onde não chega estrada.

A muralha eletrônica do sistema de monitoramento de fronteiras tem nove fases previstas e apenas duas concluídas.

É uma corrida entre duas obras: a estrada que vai aumentar o fluxo e o sistema que deveria enxergá-lo.

Por enquanto, a fronteira mais estratégica do norte do país continua sendo uma ponte de 5 milhões de dólares onde o motorista troca de mão.

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Carlos Menezes

Carlos Menezes

Meu nome é Carlos Menezes e escrevo sobre geopolítica, defesa, aviação, economia e setores estratégicos, buscando traduzir temas complexos de forma clara, direta e conectada ao impacto que eles têm no dia a dia do Brasil e do cidadão comum. No Sociedade Militar, meu compromisso é entregar informação prática, contexto relevante e análises que ajudam o leitor a enxergar além da manchete.