O governo francês sustentava restar 45 toneladas de amianto a bordo, e o Greenpeace estimava algo perto de 500. Foram doze anos entre o descomissionamento, em 1997, e o início do desmanche, em novembro de 2009.
O Clemenceau e o Foch eram irmãos, construídos com o mesmo projeto e no mesmo estaleiro.
O Foch foi vendido ao Brasil e virou o porta-aviões São Paulo.
O Clemenceau ficou na França e virou um problema diplomático que durou seis anos, atravessou três continentes e envolveu um presidente da República, uma Suprema Corte estrangeira e o Canal de Suez.
Trinta e seis anos de serviço
O navio foi comissionado em 22 de novembro de 1961 e descomissionado em 1º de outubro de 1997.
Tinha 265 metros de comprimento, 51,2 metros de boca e deslocava 32.780 toneladas em plena carga.
Serviu na Argélia, no Líbano, no Golfo e no Adriático.
Quando saiu de serviço, foi rebatizado com a designação administrativa de casco sem nome e ficou fundeado em Toulon, esperando destino.
A espera durou mais tempo do que qualquer um previa, e por um motivo que não estava na ficha técnica.
Os dois cascos formavam a classe Clemenceau, os primeiros porta-aviões projetados e construídos inteiramente na França.
O Foch serviu à Marinha do Brasil como São Paulo de 2000 a 2017 e terminou afundado no Atlântico.
O problema chamado amianto
Navios daquela geração foram construídos com amianto em toda parte, no isolamento térmico das caldeiras, nas anteparas, nas tubulações e nos revestimentos contra incêndio.
Era o material padrão da engenharia naval dos anos 1950, e só décadas depois virou o passivo mais caro de qualquer desmanche.
Quanto restava a bordo do Clemenceau nunca foi consenso.
O governo francês sustentava que sobravam cerca de 45 toneladas depois da descontaminação parcial feita em 2004.
Organizações ambientais falavam em centenas de toneladas, e o Greenpeace estimava algo próximo de 500, das quais apenas 70 teriam sido efetivamente retiradas.
A diferença entre as duas contas é a história inteira.
O que é Alang
Alang, na costa do estado indiano de Gujarat, é o maior cemitério de navios do mundo.
O método é simples e brutal: o navio é lançado a toda força contra a praia na maré alta, encalha, e ali mesmo é cortado a maçarico por equipes que trabalham sobre a areia.
Não há doca seca, não há contenção e não há tratamento de resíduo.
É por isso que casco com amianto virou questão internacional, e não apenas comercial.
A regra que atrapalhou a viagem
O enquadramento jurídico do caso é a Convenção de Basileia, que regula o movimento transfronteiriço de resíduos perigosos e o depósito deles.
A discussão passou a ser se um navio de guerra a caminho do desmanche é um navio ou um carregamento de resíduo perigoso.
Se for navio, navega.
Se for resíduo, precisa de autorização do país que recebe e do que exporta, e um país em desenvolvimento pode simplesmente recusar.
Foi esse argumento que a Suprema Corte da Índia acolheu, e é ele que continua valendo para qualquer casco militar nessa situação.
A Turquia recusa
Em 2003, o casco foi vendido a uma empresa espanhola, com a condição contratual de que a descontaminação fosse feita em país da União Europeia.
Descobriu-se que o navio estava sendo encaminhado para desmanche na Turquia, fora do bloco.
A França rescindiu o contrato e trouxe o casco de volta.
O Brasil viveria episódio parecido quase vinte anos depois, quando o antigo Foch foi barrado no caminho da Turquia pelas mesmas razões ambientais.
A Índia barra
Em 31 de dezembro de 2005, o Clemenceau deixou Toulon rebocado rumo a Alang, o maior cemitério de navios do mundo, na costa do estado indiano de Gujarat.
Em Alang, o desmanche é feito encalhando o navio na praia e cortando o casco a maçarico, com trabalhadores sem proteção adequada.
Em 6 de janeiro de 2006, a Suprema Corte da Índia bloqueou temporariamente a entrada do navio.
Em 15 de janeiro, o casco cruzou o Canal de Suez, e no mesmo período a justiça francesa determinou o retorno.
Em meados de fevereiro de 2006, o presidente Jacques Chirac anunciou a retirada e mandou o navio voltar para casa.
O Clemenceau atravessou meio mundo para nada.
O desfecho na Inglaterra
A solução final saiu no Reino Unido.
A empresa Able UK ficou com o contrato de desmontagem no estaleiro de Graythorp, perto de Hartlepool, no nordeste da Inglaterra.
O desmanche começou em 18 de novembro de 2009 e foi concluído no fim de 2010.
Foram doze anos entre o descomissionamento e a última chapa cortada.
O navio foi desmontado em instalação fechada, com o material perigoso separado e destinado conforme a legislação europeia, que é exatamente o que a França dizia querer desde o começo.
O irmão teve outro fim
O Foch seguiu caminho oposto.
Comprado pelo Brasil, serviu como São Paulo, foi desativado e teve o casco leiloado, mas nenhum país aceitou recebê-lo para desmanche.
Depois de meses rebocado em alto-mar sem porto que o recebesse, o casco foi afundado no Atlântico.
O Brasil pagou 12 milhões de dólares pelo navio em 2000 e encerrou a história a cerca de 5 mil metros de profundidade.
Dois cascos idênticos, o mesmo passivo de amianto, dois desfechos opostos.
A conta do desmanche na Inglaterra ficou com a França, que pagou para receber de volta o próprio navio e para desmontá-lo dentro das regras que ela mesma defendia.
Foi mais caro do que qualquer proposta recusada ao longo dos seis anos anteriores.
O que o caso ensinou
A saga do Clemenceau mudou a forma como a Europa trata o fim de vida dos navios de guerra.
Ficou claro que exportar casco contaminado para estaleiro de praia é caminho que a Justiça bloqueia, e que o custo do desmanche precisa entrar na conta antes, e não vinte anos depois.
Também ficou claro que passivo ambiental de navio militar não prescreve por falta de comprador.
É uma lição cara para qualquer marinha que opere meios de vida longa, porque o problema chega sempre no fim, quando já não há orçamento previsto para ele.
O Clemenceau levou doze anos e três países para ser desmontado.
O irmão dele não foi desmontado nunca.
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