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Oficial da Marinha levou mais de 8 meses para arrastar pelo sertão uma pedra de 5 toneladas caída do céu: o Bendegó, que resistiu ao incêndio do Museu Nacional

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 05/10/2026 às 12:32
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Oficial da Marinha levou mais de 8 meses para arrastar pelo sertão uma pedra de 5 toneladas caída do céu: o Bendegó, que resistiu ao incêndio do Museu Nacional
O meteorito do Bendegó sobre uma base de madeira, por volta de 1888. Foto de Marc Ferrez, Wikimedia Commons, domínio público.

Com bois, trilhos e uma carreta de ferro, a comissão de 1887 fez 113 km em 126 dias de marcha, paga por um barão que não quis revelar o custo.

O oficial da Marinha José Carlos de Carvalho, veterano da Guerra do Paraguai, levou de 7 de setembro de 1887 a meados de maio de 1888 para tirar do sertão da Bahia o Bendegó, um meteorito de ferro de 5.360 quilos. A pedra viajou 113 quilômetros sobre uma carreta puxada por bois e trilhos portáteis até a ferrovia, segundo o relatório que ele próprio entregou ao Ministério da Agricultura em agosto de 1888.

Hoje a pedra fica no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Na noite de 2 de setembro de 2018, quando o fogo destruiu o palácio da Quinta da Boa Vista, o Bendegó saiu inteiro do meio dos escombros.

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Dez quilos em Michigan, 5,3 toneladas na Bahia

Em Edmore, no estado americano de Michigan, uma pedra serviu por cerca de 30 anos como calço de porta num galpão de fazenda até ser levada a uma universidade, em 2018. A geóloga Mona Sirbescu, da Universidade Central de Michigan, confirmou que se tratava de um meteorito de ferro e níquel com cerca de 10 quilos, segundo o site ScienceAlert, que citou comunicado da universidade.

O meteorito de Michigan foi avaliado em pelo menos US$ 100 mil em 2018, valor nominal que daria cerca de R$ 522 mil pela PTAX de venda de 2 de outubro de 2026, de R$ 5,2238 por dólar, do Banco Central. O Bendegó pesa mais de 500 vezes isso, e tirá-lo do lugar exigiu uma expedição inteira.

O aviso de 1784 e a carreta que despencou no riacho

No relato histórico do próprio Carvalho, o achado chegou ao governador-geral da Bahia, D. Rodrigo José de Menezes, por meio de Joaquim da Motta Botelho, que encontrou perto do riacho Bendegó, no atual município de Monte Santo, uma pedra fora do comum. O verbete da Wikipédia em português atribui a descoberta, em 1784, a um menino da mesma família, Domingos da Motta Botelho.

O governador mandou o capitão-mor Bernardo Carvalho da Cunha levar a pedra para Salvador. Ele construiu um carretão de madeira, puxado por 12 juntas de bois, mas na descida de uma colina a carreta disparou, os eixos pegaram fogo e tudo encalhou no leito do riacho, conta o relatório. Ali o meteorito ficou por mais de cem anos.

Quem era o comandante da expedição

José Carlos de Carvalho nasceu no Rio em 2 de setembro de 1847 e entrou na Escola da Marinha em 1864, segundo o verbete biográfico do CPDOC da Fundação Getulio Vargas. Na Guerra do Paraguai, comandou a divisão de chatas nas lagoas do Humaitá e recebeu a medalha do Mérito Militar.

Em 1880 deixou o serviço ativo da Marinha e passou a trabalhar como engenheiro, de acordo com o CPDOC. Era sócio da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro desde 1881, e foi por ela que recebeu a missão de buscar o Bendegó, com os engenheiros civis Vicente José de Carvalho Filho e Humberto Saraiva Antunes.

Um barão pagou a conta e não quis mostrar quanto

O dinheiro da expedição veio do Barão do Guahy, segundo o relatório de Carvalho, e o Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas deu apoio oficial. A Wikipédia atribui o financiamento ao imperador D. Pedro II, mas o documento da comissão credita a despesa ao barão.

Não há valor em réis no relatório. Carvalho escreveu ao ministro Antonio da Silva Prado que a demonstração das despesas pagas pelo barão até a chegada à estrada de ferro não seria apresentada, por vontade do próprio financiador. Qualquer número que circule sobre o custo da viagem não vem desse documento.

113 quilômetros em 126 dias de marcha

A comissão saiu do Rio em 20 de agosto de 1887, chegou ao Bendegó em 6 de setembro e abriu oficialmente os trabalhos no dia seguinte, aniversário da Independência, registra Carvalho. Antes de mover a pedra, foi preciso abrir uma picada de 5 metros de largura pelo sertão.

A marcha começou em 25 de novembro de 1887, quando o meteorito andou 74 metros no primeiro dia, segundo o diário da expedição. A carreta, de ferro batido com rodas de flange, pesava 1.194 quilos e corria sobre trilhos desmontáveis, puxada por homens com aparelhos de polia e depois por 20 a 24 bois no cabeçalho.

O diário soma 126 dias de marcha efetiva e 113,422 quilômetros até a ferrovia, média de 900 metros por dia. A Wikipédia fala em 108 quilômetros, distância menor que a medida no relatório.

Eixos partidos, quedas e a Serra do Acaru

O caminho tinha subidas de 18% a 20% e descidas de 30% na Serra do Acaru, além de lagoas, areais e barrancos nas travessias de rio. O relatório lista eixos partidos em 8 de dezembro, 16 de janeiro, 29 de março, 6 de abril e 11 de maio.

A pedra também caiu da carreta mais de uma vez, no riacho das Tocas, na Volta da Pedra e na descida da rampa do Genipapo, conta o diário. O trabalho parou no Natal, no Ano-Novo, na Semana Santa e em dias de chuva.

Do trem em Jacurici ao navio para o Rio

Em maio de 1888 o carretão chegou à estação de Jacurici, e no dia 17 o meteorito seguiu a vapor pela ferrovia. Foram 368,656 quilômetros de trilhos até a cidade da Bahia, como Salvador era chamada, onde a pedra chegou em 22 de maio, segundo o diário.

De Salvador, o Bendegó embarcou no navio Arlindo em 1º de junho e chegou ao Rio em 15 de junho de 1888, onde foi recebido pela princesa Isabel e levado ao Arsenal de Marinha da Corte, segundo a cronologia do verbete da Wikipédia. Da Marinha, seguiu para o Museu Nacional.

O fogo de 2018 não derreteu a pedra

O incêndio de 2 de setembro de 2018 consumiu a maior parte do acervo do Museu Nacional. Na manhã seguinte, imagens mostravam o Bendegó sem danos, com a sala em volta destruída, segundo reportagem do InfoMoney com a Agência Brasil.

A explicação está na composição: o Bendegó é uma massa maciça de ferro com cerca de 6,5% de níquel e 2,20 metros de comprimento, segundo o verbete da Wikipédia. Os mesmos 5.360 quilos que custaram oito meses de sertão em 1887 e 1888 atravessaram o fogo em 2018.

Do sertão à reforma como contra-almirante

Depois do Bendegó, Carvalho virou inspetor de Imigração, foi preso em 1892 acusado de conspirar contra Floriano Peixoto e, na Revolta da Armada, lutou ao lado do governo, o que lhe valeu o posto de capitão de mar e guerra, segundo o CPDOC. Foi deputado federal pelo Distrito Federal e pelo Rio Grande do Sul.

Em 1910, ainda deputado, atuou contra os marinheiros da Revolta da Chibata e foi promovido a contra-almirante, posto em que foi reformado, de acordo com o CPDOC. A Wikipédia o chama de vice-almirante. A pedra que ele trouxe do riacho Bendegó continua no museu que pegou fogo, a poucos quilômetros do Arsenal onde desembarcou em 1888.

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