Levaram de Zapala a Cutral Co uma bandeira assinada por ex-combatentes e chegaram à praça do primeiro neuquino morto na guerra.
Os ex-soldados do Exército Argentino Uriel Espinoza e Lucas Constancio, ambos de 22 anos, caminharam cerca de 80 quilômetros entre Zapala e Cutral Co, na província de Neuquén, para homenagear os veteranos da Guerra das Malvinas. Foram de 15 horas e meia a 16 horas de marcha sem descanso, entre o sábado, 5, e o domingo, 6 de setembro, com mínima de 7 graus negativos, segundo o jornal LM Neuquén.
Os dois levaram uma bandeira assinada por veteranos de Malvinas de Zapala e a entregaram, no fim do trajeto, a ex-combatentes de Cutral Co. A marcha saiu do Monumento ao Soldado Argentino, em Zapala, e terminou na praça que leva o nome de Jorge Águila, o primeiro soldado de Neuquén morto na guerra de 1982.
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Dois montanheses formados no Exército
Uriel nasceu em Zapala e cresceu em Cutral Co, e Lucas é natural de Cutral Co. Uriel serviu na Base de Apoio Logístico como soldado de primeira e caçador de montanha, enquanto Lucas se especializou em atividades de montanha e foi destinado a San Martín de los Andes, de acordo com o LM Neuquén.
Os dois entraram nas fileiras como soldados voluntários, porque na Argentina o serviço militar é voluntário desde a lei de 1994. Nenhum deles era nascido quando a guerra terminou, 44 anos antes da caminhada.
A pergunta feita num treino na cordilheira
A ideia surgiu durante um treinamento militar na cordilheira, em condições adversas, quando os dois se perguntaram como seria estar no lugar de quem lutou nas Malvinas 44 anos antes. “Entendemos que não estávamos passando nem um pouco do que tinha vivido o pessoal de Malvinas”, disse Uriel ao LM Neuquén.
A partir daí, decidiram ligar a pé dois pontos de memória da guerra na própria região onde moram. “Nós não esperávamos nada. É uma iniciativa que nasceu de nós, sem pedir algo em troca. Foi só dizer: vamos unir os pontos e prestar homenagem”, contou Lucas ao jornal.
Oitenta quilômetros de estepa, de madrugada
O percurso cortou campo aberto na estepa patagônica e passou pelo planalto do Cerro Bandera, onde os dois enfrentaram chuva com neve durante a marcha noturna. A mínima de 7 graus negativos e a distância de cerca de 80 quilômetros aparecem tanto no LM Neuquén quanto no portal argentino Minuto Uno.
No quilômetro 57, por volta das 4h30 da madrugada, o cansaço extremo quase os fez parar, segundo o LM Neuquén. Fome e falta de sono pesavam, e uma divergência sobre qual música ouvir virou uma discussão que durou cerca de 10 quilômetros. Na etapa final, aceleraram e correram para chegar ao destino.
“A missão se cumpre ou se cumpre”
Lucas explicou ao jornal por que seguiram. “O que o Exército deixou marcado em nós é cumprir a missão custe o que custar. Então dissemos: a missão se cumpre ou se cumpre”, afirmou. Uriel resumiu a experiência de outro jeito: “Somos jovens, mas o Exército nos fez homens grandes”.
“As Malvinas são argentinas, proibido esquecer”, disse Lucas. A reivindicação argentina tem apoio na região: em abril de 2026, na Declaração do Rio de Janeiro da Zopacas, o Brasil e outros 23 países manifestaram preocupação com atividades “ilegítimas” de exploração de hidrocarbonetos na área em disputa.
Quem foi o soldado Jorge Águila
Jorge Néstor Águila nasceu em Paso Aguerre, localidade a 65 quilômetros de Picún Leufú, em Neuquén, e era conhecido como Moncho. Conscrito da Infantaria de Marinha, morreu em 3 de abril de 1982, nas Geórgias do Sul, quando o helicóptero Puma da Armada que o transportava foi atingido por disparos britânicos durante a Operação Georgias, segundo o LM Neuquén.
Morreram com ele o cabo Patricio Guanca e o conscrito Mario Almonacid. Águila foi o primeiro neuquino morto no conflito, recebeu a Medalha ao Morto em Combate e foi declarado herói nacional. Seus restos estão num mausoléu em Paso Aguerre, e em Cutral Co uma praça do bairro Brentana leva seu nome, de acordo com o portal Minuto Neuquén.
649 argentinos mortos em 74 dias
A guerra começou em 2 de abril de 1982, com o desembarque argentino nas ilhas, e terminou em 14 de junho. Participaram 23.813 combatentes argentinos e 649 morreram, segundo dados oficiais do Ministério da Defesa reunidos pelo site de checagem Chequeado. Do lado britânico, foram 255 mortos.
A Armada concentrou 391 das mortes argentinas, 323 delas no afundamento do cruzador General Belgrano. No terceiro trimestre de 2025, pouco mais de 22 mil veteranos recebiam pensão vitalícia do Estado argentino, segundo o Chequeado.
No Brasil, a geração da FEB tem mais de 100 anos
A guerra que formou os veteranos brasileiros é bem mais antiga. A Força Expedicionária Brasileira enviou cerca de 25 mil combatentes à Itália, e o Censo Permanente da FEB contava 22 pracinhas vivos na atualização de maio de 2026.
Em agosto, aos 103 anos, Agostinho Ferreira, último pracinha vivo do Espírito Santo, que tomou parte na conquista de Monte Castelo, ganhou uma banda em frente à casa onde mora. Soldado de comunicações do Regimento Sampaio, ele embarcou para a Itália em 1944 no navio General Mann.
Um dia malvinense em Cutral Co
Na chegada à praça Soldado Jorge Águila, a bandeira assinada em Zapala foi entregue aos veteranos de Cutral Co. Alguns choraram e chamaram a data de “um dia malvinense”, segundo o LM Neuquén. Uriel e Lucas foram reconhecidos como cidadãos destacados das duas cidades.
A caminhada rendeu mensagens de apoio do Equador, do Peru, dos Estados Unidos e da Itália, além de argentinos que vivem fora do país. O próximo plano dos dois é caminhar nas próprias Ilhas Malvinas num 2 de abril, data em que a Argentina lembra os veteranos e os mortos da guerra, mas ainda sem ano nem organização definidos.
A Malvinas pertencem a Argentina. O que os britânicos estão fazendo lá? Que cuidem das ilhas deles láno norte, mas aqui embaixo, no extremo Sul, não tem que dar pitaco algum. Aliás, quando descem de lá, sempre vem pedir “agua” aqui no Brasil. A época das colônias não existe mais.