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Um projeto criado em 1º de abril de 2020 saiu atrás dos últimos pracinhas cruzando arquivos militares, cartórios e informações de família, chegou a contar 127 vivos em janeiro de 2021 e na atualização de maio de 2026 restavam 22

Um projeto criado em 1º de abril de 2020 saiu atrás dos últimos pracinhas cruzando arquivos militares, cartórios e informações de família, chegou a contar 127 vivos em janeiro de 2021 e na atualização de maio de 2026 restavam 22
Soldados brasileiros posam diante de um semilagarta M3, na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Foto: autoria desconhecida, via Wikimedia Commons (domínio público).
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O levantamento cobre os cerca de 25 mil combatentes que a Força Expedicionária Brasileira enviou à Itália e os 350 homens da Força Aérea no mesmo teatro. Entre novembro de 2023 e março de 2026, o número de pensionistas caiu 70,35%.

Em 1º de abril de 2020, no ano em que a vitória aliada completava 75 anos, um grupo de pesquisadores percebeu que o Brasil não sabia responder a uma pergunta simples: quantos veteranos da Força Expedicionária Brasileira ainda estavam vivos.

Não havia lista oficial atualizada, e as associações trabalhavam com números divergentes.

A resposta virou um projeto de contagem contínua.

Quem são os 25 mil que estão sendo contados

A FEB embarcou para a Itália em 1944 e combateu até a rendição alemã, em maio de 1945.

Foi a única força terrestre latino-americana a lutar na Europa, integrada ao 5º Exército norte-americano, com generais brasileiros comandando a própria tropa.

A campanha passou por Monte Castelo, Montese e Fornovo, e terminou com a rendição de uma divisão inteira do Eixo.

Os pracinhas desembarcaram de volta no Rio de Janeiro em agosto de 1945 e foram recebidos como heróis.

A desmobilização foi rápida, e boa parte deles voltou à vida civil sem qualquer acompanhamento do Estado.

O que o censo faz

O Censo Permanente da FEB cruza fontes que raramente conversam entre si.

Entram arquivos militares, registros públicos de cartório, listas de associações de ex-combatentes e informação passada por famílias.

Cada nome localizado recebe ficha biográfica, com dados de combate e trajetória, e a listagem fica aberta para consulta pública.

A atualização acontece a cada 60 dias, em média.

Em 2022, o levantamento deixou de ser esforço pontual e passou a ter caráter permanente.

A curva de 127 para 22

O ponto mais alto da contagem foi 18 de janeiro de 2021, com 127 veteranos vivos identificados.

O ano de 2026 começou com 30.

Em março já eram 27, e na atualização de 1º de maio o número havia caído para 22.

A maior parte deles vive no estado do Rio de Janeiro.

É uma curva que nenhuma metodologia consegue suavizar, porque o mais novo dos pracinhas passou dos 90 anos há bastante tempo.

O universo que está sendo contado

O censo tem recorte definido e não mistura categorias.

Trata dos cerca de 25 mil combatentes que a FEB embarcou para a Itália e dos aproximadamente 350 homens da Força Aérea que atuaram no mesmo teatro.

Esse é o núcleo da participação brasileira na guerra, e é sobre ele que a pesquisa se debruça.

O 1º Grupo de Aviação de Caça, o esquadrão que voou os P-47 na Itália, não tem mais nenhum sobrevivente desde 15 de janeiro de 2025.

Aquele capítulo fechou por completo.

Três grupos diferentes, três contagens

Nem todo brasileiro que serviu na guerra é veterano da FEB, e o censo trata essas categorias separadamente.

Há o pessoal da Defesa do Litoral, que guarneceu a costa brasileira contra o ataque submarino alemão.

Há a Marinha, que perdeu navios e tripulações no Atlântico Sul, entre eles os 337 mortos do cruzador Bahia.

E há a Aeronáutica, com o grupo de caça e as tripulações de patrulha.

Cada grupo tem regra própria de reconhecimento e de pensão, e é por isso que os números aparecem em linhas distintas na planilha.

A conta das pensões conta a mesma história

Existe um segundo indicador no levantamento, e ele é ainda mais frio.

Em 9 de março de 2026 havia 14 pensionistas ligados à FEB, 29 ligados à Defesa do Litoral, 26 ligados à Marinha, três deles da Marinha Mercante, e apenas um da Aeronáutica.

Somados, 43.

Em novembro de 2023 eram 145.

A queda em 29 meses foi de 70,35%.

Por que era preciso contar

Durante décadas, o veterano da FEB ocupou um lugar estranho na memória nacional.

Voltou da Itália em 1945 recebido como herói e, anos depois, foi sendo empurrado para a margem, com pouca atenção acadêmica e quase nenhum registro sistemático.

Muitos morreram sem que ninguém tomasse o depoimento.

Histórias como a dos três soldados cercados em Montese chegaram até aqui por acaso, e não por política de preservação.

O censo existe para inverter isso enquanto ainda há quem responda.

O que ainda dá para fazer

A listagem é aberta e aceita contribuição de qualquer pessoa que tenha informação sobre um ex-combatente.

Isso importa porque parte dos nomes só aparece quando um neto liga, manda uma foto antiga ou um documento guardado em casa.

Registros regionais ajudam a localizar quem ainda vive numa cidade, caso do dia de homenagem criado no Rio.

Cada nome confirmado é um depoimento que ainda pode ser gravado.

O que uma ficha do censo guarda

Cada registro vai além do nome e da data de nascimento.

Entram a unidade em que o veterano serviu, o período em que esteve no teatro de operações, as ações de que participou e, quando existe, o depoimento gravado.

Esse detalhe muda o valor do trabalho: uma lista de nomes serve para estatística, mas uma ficha com trajetória serve para pesquisa histórica.

É a diferença entre saber quantos foram e saber o que fizeram.

Boa parte do material só existe porque a família guardou caderno, carta ou fotografia por oitenta anos.

O que fica quando o último sair

Em algum momento dos próximos anos, o censo vai registrar zero.

O que restar será o que foi coletado antes disso: fichas, entrevistas, fotos e documentos.

Os soldados que desobedeceram na Itália viraram lenda contada de boca em boca, e daqui em diante existirão só em papel.

É a diferença entre história viva e história de arquivo, e ela está sendo atravessada agora, a cada atualização de 60 dias.

A conta da Marinha naquela guerra terminou muito antes, e hoje sobrevive quase só nos nomes gravados em monumento.

Quem tem em casa um documento, uma carta ou uma fotografia de ex-combatente pode enviar a informação ao levantamento, que aceita contribuição pública e corrige a listagem a cada rodada.

O prazo para gravar a voz de quem esteve lá é medido em meses, não em anos.

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Carlos Menezes

Carlos Menezes

Meu nome é Carlos Menezes e escrevo sobre geopolítica, defesa, aviação, economia e setores estratégicos, buscando traduzir temas complexos de forma clara, direta e conectada ao impacto que eles têm no dia a dia do Brasil e do cidadão comum. No Sociedade Militar, meu compromisso é entregar informação prática, contexto relevante e análises que ajudam o leitor a enxergar além da manchete.