O levantamento cobre os cerca de 25 mil combatentes que a Força Expedicionária Brasileira enviou à Itália e os 350 homens da Força Aérea no mesmo teatro. Entre novembro de 2023 e março de 2026, o número de pensionistas caiu 70,35%.
Em 1º de abril de 2020, no ano em que a vitória aliada completava 75 anos, um grupo de pesquisadores percebeu que o Brasil não sabia responder a uma pergunta simples: quantos veteranos da Força Expedicionária Brasileira ainda estavam vivos.
Não havia lista oficial atualizada, e as associações trabalhavam com números divergentes.
A resposta virou um projeto de contagem contínua.
Quem são os 25 mil que estão sendo contados
A FEB embarcou para a Itália em 1944 e combateu até a rendição alemã, em maio de 1945.
Foi a única força terrestre latino-americana a lutar na Europa, integrada ao 5º Exército norte-americano, com generais brasileiros comandando a própria tropa.
A campanha passou por Monte Castelo, Montese e Fornovo, e terminou com a rendição de uma divisão inteira do Eixo.
Os pracinhas desembarcaram de volta no Rio de Janeiro em agosto de 1945 e foram recebidos como heróis.
A desmobilização foi rápida, e boa parte deles voltou à vida civil sem qualquer acompanhamento do Estado.
O que o censo faz
O Censo Permanente da FEB cruza fontes que raramente conversam entre si.
Entram arquivos militares, registros públicos de cartório, listas de associações de ex-combatentes e informação passada por famílias.
Cada nome localizado recebe ficha biográfica, com dados de combate e trajetória, e a listagem fica aberta para consulta pública.
A atualização acontece a cada 60 dias, em média.
Em 2022, o levantamento deixou de ser esforço pontual e passou a ter caráter permanente.
A curva de 127 para 22
O ponto mais alto da contagem foi 18 de janeiro de 2021, com 127 veteranos vivos identificados.
O ano de 2026 começou com 30.
Em março já eram 27, e na atualização de 1º de maio o número havia caído para 22.
A maior parte deles vive no estado do Rio de Janeiro.
É uma curva que nenhuma metodologia consegue suavizar, porque o mais novo dos pracinhas passou dos 90 anos há bastante tempo.
O universo que está sendo contado
O censo tem recorte definido e não mistura categorias.
Trata dos cerca de 25 mil combatentes que a FEB embarcou para a Itália e dos aproximadamente 350 homens da Força Aérea que atuaram no mesmo teatro.
Esse é o núcleo da participação brasileira na guerra, e é sobre ele que a pesquisa se debruça.
O 1º Grupo de Aviação de Caça, o esquadrão que voou os P-47 na Itália, não tem mais nenhum sobrevivente desde 15 de janeiro de 2025.
Aquele capítulo fechou por completo.
Três grupos diferentes, três contagens
Nem todo brasileiro que serviu na guerra é veterano da FEB, e o censo trata essas categorias separadamente.
Há o pessoal da Defesa do Litoral, que guarneceu a costa brasileira contra o ataque submarino alemão.
Há a Marinha, que perdeu navios e tripulações no Atlântico Sul, entre eles os 337 mortos do cruzador Bahia.
E há a Aeronáutica, com o grupo de caça e as tripulações de patrulha.
Cada grupo tem regra própria de reconhecimento e de pensão, e é por isso que os números aparecem em linhas distintas na planilha.
A conta das pensões conta a mesma história
Existe um segundo indicador no levantamento, e ele é ainda mais frio.
Em 9 de março de 2026 havia 14 pensionistas ligados à FEB, 29 ligados à Defesa do Litoral, 26 ligados à Marinha, três deles da Marinha Mercante, e apenas um da Aeronáutica.
Somados, 43.
Em novembro de 2023 eram 145.
A queda em 29 meses foi de 70,35%.
Por que era preciso contar
Durante décadas, o veterano da FEB ocupou um lugar estranho na memória nacional.
Voltou da Itália em 1945 recebido como herói e, anos depois, foi sendo empurrado para a margem, com pouca atenção acadêmica e quase nenhum registro sistemático.
Muitos morreram sem que ninguém tomasse o depoimento.
Histórias como a dos três soldados cercados em Montese chegaram até aqui por acaso, e não por política de preservação.
O censo existe para inverter isso enquanto ainda há quem responda.
O que ainda dá para fazer
A listagem é aberta e aceita contribuição de qualquer pessoa que tenha informação sobre um ex-combatente.
Isso importa porque parte dos nomes só aparece quando um neto liga, manda uma foto antiga ou um documento guardado em casa.
Registros regionais ajudam a localizar quem ainda vive numa cidade, caso do dia de homenagem criado no Rio.
Cada nome confirmado é um depoimento que ainda pode ser gravado.
O que uma ficha do censo guarda
Cada registro vai além do nome e da data de nascimento.
Entram a unidade em que o veterano serviu, o período em que esteve no teatro de operações, as ações de que participou e, quando existe, o depoimento gravado.
Esse detalhe muda o valor do trabalho: uma lista de nomes serve para estatística, mas uma ficha com trajetória serve para pesquisa histórica.
É a diferença entre saber quantos foram e saber o que fizeram.
Boa parte do material só existe porque a família guardou caderno, carta ou fotografia por oitenta anos.
O que fica quando o último sair
Em algum momento dos próximos anos, o censo vai registrar zero.
O que restar será o que foi coletado antes disso: fichas, entrevistas, fotos e documentos.
Os soldados que desobedeceram na Itália viraram lenda contada de boca em boca, e daqui em diante existirão só em papel.
É a diferença entre história viva e história de arquivo, e ela está sendo atravessada agora, a cada atualização de 60 dias.
A conta da Marinha naquela guerra terminou muito antes, e hoje sobrevive quase só nos nomes gravados em monumento.
Quem tem em casa um documento, uma carta ou uma fotografia de ex-combatente pode enviar a informação ao levantamento, que aceita contribuição pública e corrige a listagem a cada rodada.
O prazo para gravar a voz de quem esteve lá é medido em meses, não em anos.
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