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Comida estragada, banheiros sem água e pressão psicológica: após o porta-aviões USS Abraham Lincoln, relatos de familiares e militares expõem situação precária em outros navios e em instalações dos EUA na guerra estendida contra o Irã

Relatos de familiares e de marinheiros mostram os efeitos da guerra prolongada dos EUA contra o Irã, que estendeu o destacamento de embarcações; destruição de centro de logística no Oriente Médio agravou a situação

Comida estragada, banheiros sem água e pressão psicológica: após o porta-aviões USS Abraham Lincoln, relatos de familiares e militares expõem situação precária em outros navios e em instalações dos EUA na guerra estendida contra o Irã
O USS Abraham Lincoln está no mar há mais de 260 dias e será substituído pelo USS George Washington no Oriente Médio. Foto: Reprodução
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Desde que as condições precárias dos marinheiros a bordo do porta-aviões norte-americano USS Abraham Lincoln vieram à tona com relatos de problemas sanitários, alimentação precária e até tentativas de suicídio a bordo após uma missão que se estende por mais de 9 meses no mar, a mídia especializada dos Estados Unidos tem recebido mensagens de familiares e membros das Forças Armadas que servem em outras embarcações, indicando que as condições insalubres se estendem a outros navios de guerra destacados e também a instalações em terra envolvidas na guerra contra o Irã no Oriente Médio.

Em conjunto, esses relatos revelam uma crise que vai muito além de um único porta-aviões, conforme mensagens anônimas compartihadas pelo portal MeidasTouch Network (MTN).

Uma das mansagens recebidas pelo portal relata que a tripulação do porta-aviões USS George H. W. Bush vive situação parecida a dos marinhos do Abraham Lincoln, que vai ser enviado de volta aos Estados Unidos devido às condições insalubres a bordo. Segundo relato de um familiar de dois miliares, o navio está no mar há mais de 130 dias sem previsão de ancorar.

“Eles estão praticamente sem comida, água ou sabão (…) o moral está baixo e todos estão miseráveis. É de partir o coração”, afirma o relato anônimo sobre as condições a bordo do USS George Bush.

O marinheiro a bordo de um outro navio de guerra em campanha no Oriente Médio afirma que a situação ainda não ficou tão crítica, mas “pode ficar tão feia quanto a do Lincoln” devido ao destacamento avançado de quase 6 meses da embarcação devido ao conflito com o Irã. Devido ao ritmo intenso dos combates iniciados no fim de fevereiro, essas embarcações não puderam fazer paradas em portos aliados para reabastecer suprimentos.

“Tudo o que ele quer é voltar para casa”

Outro relato anônimo de um familiar de um militar dos EUA diz que a situação é preocupante também entre as forças em terra. No Kuwait, que reúne importantes instalações miltares dos EUA envolvidas na guerra, o relato traz detalhes sobre as condições psicológicas da tropa.

“Meu filho está no Kuwait e está em péssimas condições de saúde. Toda a sua saúde mental foi destruída, e tudo o que ele quer é voltar para casa, para o quarto dele e para os cães. Por favor, ajude-o. Ele diz que está cansado, com fome e assustado.”

Condições abalam até marinheiros experientes

O relato da esposa de um marinheiro a bordo do USS Abraham Lincoln compartilhado pelo MeidasTouch Network (MTN) afirma que até mesmo militares experientes, com mais de 20 anos de serviço no mar, estão abalados com as condições vividas a bordo.

“Eles estão dizendo que este é o pior destacamento que eles já experienciaram. Eles estão exaustos e sentindo que não estão sendo ouvidos, e desesperadamente precisam de ajuda”, diz a mensagem reproduzida pelo portal.

No USS Abraham Lincoln, mensagens compartilhadas relatam que as provisões de comida chegaram a níveis extremamente baixos, e que a única comida “fresca” é carne congelada, mas que por vezes, chegou podre aos marinheiros.

Os marinheiros também relatam que não têm sanitários funcionando, e que faltam itens básicos como desodorantes. Segundo informou o jornal britânico The Guardianao menos três militares tentaram se jogar no mar em episódios separados e foram impedidos por outros tripulantes.

Donald Trump minimiza problemas enfrentados pelas tropas

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, minimizou os relatos sobre as condições enfrentadas por militares americanos a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln. Questionado por jornalistas, Trump rejeitou as alegações e afirmou que mais de 260 dias de operação “está longe de ser tempo suficiente”.

O alto comando das Forças Armadas dos EUA também nega que exista uma crise de saúde mental a bordo do navio.

Por meio das redes sociais, o Comando Central dos EUA (CENTCOM) afirmou que se verificaram “várias alegações falsas” e “notícias erradas generalizadas” relacionadas à mobilização do porta-aviões e que a tripulação continuava “resiliente e determinada”.

As declarações oficiais vão de encontro ao relato de dezenas de marinheiros recebidos pela mídia norte-americana que detalham as condições precárias a bordo não só o Lincoln, mas de outras embarações.

Congressistas dos EUA pedem explicações

Parlamentares democratas dos Estados Unidos exigiram explicações oficiais do Pentágono e da Marinha sobre as condições precárias a bordo do porta-aviões USS Abraham Lincoln. Em uma carta enviada a autoridades de defesa, legisladores apontaram os graves problemas relatados por familiares e marinheiros e as preocupações com o desgaste psicológico da tripulação após mais de 260 dias em alto-mar sem atracar.

“A forma como (o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump) está tratando nossos militares enquanto conduz esta guerra ilegal não é apenas repugnante, é perigosa”, afirmou o senador senador Ruben Gallego.

Apesar de negar as conições degradantes da tripulação do porta-aviões USS Abraham Lincoln, o Pentágono anunciou que a embarcação será substituída no front do Oriente Médio pelo USS George Washington.

O Licoln deixou San Diego em novembro de 2025 para uma missão de sete meses no Pacífico. Em janeiro de 2026, a embarcação foi redirecionada para o Oriente Médio em meio à escalada das tensões com o Irã. Outras embarcações que já estavam em destacamento no mar foram redirecionadas para o Oriente Médio após o início do conflito.

Segundo o jornal The New York Times, os problemas com o navio começaram após um ataque iraniano à base naval americana no Bahrein. O bombardeio destruiu parte importante do centro logístico usado pelos EUA na região, o que dificultou o reabastecimento da frota com itens básicos.

Maior porta-aviões dos EUA foi retirado de serviço

Os problemas críticos agora enfrentados pelas tropas a bordo do USS Abraham Lincoln e de outras embarcações destacadas pelos Estados Unidos não ocorreram sem aviso. Em maio, depois de permanecer em opração contínua no mar por um tempo recorde de 11 meses, o USS Gerald R. Ford, maior porta-aviões dos EUA e maior embarcação de guerra do mundo, foi enviado de volta à Estação Naval de Norfolk, na Virgínia, para ser submetido a um longo período de manutenções, conforme detalhou a revista Sociedade Militar.

A parada de manutenção do navio se deu a diversos problemas estruturais e também a um incêndio que atingiu áreas internas do porta-aviões enquanto ele operava no Oriente Médio. Os relatos da imprensa são de que a embarcação enfrentou problemas nas instalações sanitárias para a tripulação de 4.500 homens. Os problemas no sistema de banheiros, com entupimentos frequentes nos mais de 650 sanitários a vácuo, seriam crônicos no navio.

O USS Ford é o navio mais caro já construído para a Marinha norte-americana, com custo de mais de US$ 13 bilhões somente na fase de construção, e inaugurou uma nova classe de superporta-aviões projetada para substituir gradualmente a antiga Classe Nimitz, da qual fazem parte o USS Abraham Lincoln e o USS George Washington.

Os problemas enfrentados pelo navio durante o seu primeiro destacamento prolongado também geraram controvérsias sobre o custo-benefício do programa de porta-aviões dos EUA, que consome bilhões de dólares enquanto enfrenta uma série de questionamentos e problemas.

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Fernando Bianchi

Fernando Bianchi

Jornalista com mais de 10 anos de experiência na área da comunicação, redação e reportagem. Atuou como repórter em veículos impressos e multimídia, além de projetos na comunicação corporativa, pública e assessoria de imprensa. Escreve sobre geopolítica, defesa e novas tecnologias.