Foram 921 candidatos ligados às forças de segurança neste ano, contra 1.480 em 2022; mesmo com 559 nomes a menos na disputa, o grupo passou de 33 para 53 eleitos e ampliou sua presença nas urnas.
Menos militares entraram na disputa eleitoral de 2026, mas um número significativamente maior conseguiu sair dela eleito. Foram 53 candidatos militares vitoriosos neste ano, contra 33 nas eleições de 2022, segundo levantamento publicado pelo UOL. O crescimento entre os eleitos foi de aproximadamente 60,6%.
O movimento chama atenção justamente porque ocorreu na direção oposta à quantidade de candidaturas. Em 2022, eram 1.480 integrantes das forças de segurança concorrendo a cargos eletivos. Em 2026, foram 921 — redução de 559 nomes, ou cerca de 37,8%.
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Em outras palavras: a presença de fardados entre os candidatos diminuiu, mas aqueles que permaneceram na disputa tiveram representação maior entre os vencedores.
559 candidatos a menos, mas 20 eleitos a mais
O contraste entre as duas eleições é o dado que melhor dimensiona a mudança.
Em quatro anos, o universo de candidaturas caiu de 1.480 para 921. Ao mesmo tempo, o número de eleitos passou de 33 para 53.
Não se trata, portanto, simplesmente de um aumento provocado pela existência de mais militares concorrendo. O movimento ocorreu apesar de uma redução expressiva na quantidade de nomes apresentados às urnas.
É uma diferença importante para interpretar os números. Uma eleição com menos candidaturas desse grupo poderia produzir naturalmente menos eleitos. Em 2026, ocorreu o contrário.
Segundo os dados apresentados pelo UOL, o PL concentrou o maior número de candidatos militares, com 141 nomes. Na sequência apareceram Republicanos, com 91, e Podemos, com 74. Esses números se referem às candidaturas apresentadas pelos partidos, e não ao total de eleitos por cada legenda.
Segurança pública continua sendo uma porta de entrada para a política
Ao analisar o fenômeno, o sociólogo Felipe Ramos Garcia, doutor em Sociologia e pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), apontou ao UOL a influência do bolsonarismo sobre a entrada de integrantes das forças de segurança na política.
Na avaliação apresentada pelo pesquisador, a identificação com o ex-presidente Jair Bolsonaro estimulou candidaturas dentro desse universo. Garcia também chama atenção para outro elemento: a segurança pública transformada em plataforma eleitoral por candidatos oriundos das carreiras militares e policiais.
Segundo ele, setores civis da política, especialmente representantes de centro-esquerda, teriam negligenciado o tema durante parte dos últimos anos, abrindo espaço para que representantes ligados às forças de segurança ocupassem esse debate. Trata-se da interpretação do pesquisador ouvida pelo UOL, e não de uma conclusão independente sobre as causas do resultado eleitoral.
Os números de 2026 mostram, de qualquer forma, que a redução das candidaturas não significou retração equivalente nas vitórias eleitorais.
O que acontece com um militar da ativa quando ele é eleito?
A participação eleitoral de militares possui uma particularidade que não existe para a maioria dos candidatos civis.
O artigo 14, parágrafo 8º, da Constituição Federal estabelece regras diferentes de acordo com o tempo de serviço.
O militar alistável com menos de dez anos de serviço deve afastar-se da atividade. Para aquele com mais de dez anos, a Constituição determina que seja agregado pela autoridade superior e, caso seja eleito, passe automaticamente para a inatividade no momento da diplomação.
Isso significa que, pela regra constitucional atualmente vigente, um militar com mais de dez anos de serviço não precisa necessariamente deixar definitivamente a carreira apenas por registrar sua candidatura.
A vitória eleitoral é que produz a passagem automática para a inatividade no momento previsto pela Constituição.
E justamente essa lógica poderá mudar.
PEC quer antecipar ida de militares das Forças Armadas para a reserva
A PEC 42/2023 propõe modificar as condições de elegibilidade dos militares da ativa das Forças Armadas.
Pelo texto aprovado anteriormente na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, o militar federal candidato seria transferido para a reserva já no registro da candidatura: para a reserva não remunerada quando não reunisse as condições para transferência remunerada, ou para a reserva remunerada quando preenchesse os requisitos legais.
A mudança é relevante porque deslocaria para o começo da candidatura uma consequência que, pela Constituição atual, pode ocorrer apenas após a eleição para militares com mais de dez anos de serviço.
A proposta, porém, ainda não foi aprovada pelo Congresso. A página oficial do Senado registra a PEC 42/2023 como em tramitação, no Plenário, aguardando avanço de sua apreciação.
Assim, os 53 militares eleitos em 2026 chegam ao fim deste primeiro turno sob uma regra constitucional que continua sendo alvo de discussão no Congresso.
A eleição produziu um paradoxo numérico difícil de ignorar: o grupo perdeu 559 candidaturas em relação a 2022, mas ganhou 20 eleitos. O próximo debate não será apenas sobre quantos militares entram na política, mas também sobre em que momento a carreira militar deve terminar quando essa entrada acontece.