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Em 1984, um porta-aviões americano de 80 mil toneladas bateu num submarino nuclear soviético que o seguia havia dias e subiu à tona bem na frente dele

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 11/10/2026 às 10:54
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Em 1984, um porta-aviões americano de 80 mil toneladas bateu num submarino nuclear soviético que o seguia havia dias e subiu à tona bem na frente dele
O porta-aviões USS Kitty Hawk (CV-63) navegando, em 1984. Foto: PH3 Yebba, Marinha dos EUA, Wikimedia Commons, domínio público.

O histórico oficial da Marinha dos EUA diz que o K-314 já tinha sido “abatido” mais de 15 vezes em simulação; a versão russa fala em reboque e num rasgo de 40 metros no porta-aviões.

Às 22h07 de 21 de março de 1984, o capitão David N. Rogers sentiu no passadiço do porta-aviões americano USS Kitty Hawk “um tremor perceptível, um tremor bastante violento”. Ele e o vigia de boreste viram a silhueta da vela de um submarino se afastando no escuro do Mar do Japão, sem luzes de navegação, segundo o histórico oficial do navio publicado pelo Comando de História e Patrimônio Naval dos Estados Unidos.

O navio de 80 mil toneladas em carga plena tinha acabado de bater num submarino nuclear soviético, provavelmente o K-314, da classe Victor I, que subia à tona bem na frente dele. Fazia três dias que o submarino seguia o grupo de batalha americano, e os helicópteros da escolta já o tinham “matado” em simulação mais de 15 vezes.

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Um exercício com a Coreia do Sul vigiado por 43 aviões soviéticos

O Kitty Hawk liderava o Grupo de Batalha Bravo no Team Spirit 84-1, exercício conjunto com as forças da Coreia do Sul. Entre 19 e 21 de março, 43 aeronaves soviéticas, seis navios e um submarino se aproximaram da formação, registra o histórico do Comando de História e Patrimônio Naval, conhecido pela sigla em inglês NHHC.

Os russos já acompanhavam o porta-aviões desde janeiro. O navio-espião Nikolay Zubov seguiu o Kitty Hawk na travessia para o Pacífico Ocidental, e bombardeiros Tu-95 Bear sobrevoaram o navio em fevereiro e março, segundo a mesma cronologia oficial.

Quinze “abates” de mentira em três dias

O submarino foi avistado na superfície no dia 19, a 50 milhas náuticas, cerca de 93 quilômetros, à frente da rota prevista do porta-aviões, e mergulhou em seguida. Nos três dias seguintes, helicópteros lançados pelo grupo de batalha o detectaram e o “mataram mais de 15 vezes”, disse depois o contra-almirante Richard M. Dunleavy, diretor do programa de porta-aviões da Marinha americana, citado pelo NHHC.

Era o jogo de gato e rato da Guerra Fria, em que caçar o outro sem disparar fazia parte da rotina dos dois lados. Do lado soviético, a tarefa do K-314 era acompanhar o grupo do porta-aviões, segundo o arquivo russo DeepStorm.

O próprio K-314 tinha experiência nesse jogo. Em abril de 1980, perto da Península de Kamchatka, ele perseguiu um submarino nuclear americano por 11 horas a 30 nós, até empurrá-lo para baixo do gelo do Mar de Okhotsk, segundo o arquivo russo DeepStorm, que reúne a história da frota de submarinos soviética e cita obras como as de Serguei Berejnoi e Iuri Apalkov.

A 150 milhas de Pohang, a pancada no escuro

A colisão aconteceu a cerca de 150 milhas a leste de Pohang, na Coreia do Sul, perto de 37°3′ norte e 131°54′ leste, enquanto o grupo navegava para o sul, rumo ao Estreito de Tsushima. O histórico oficial diz que o submarino, “tentativamente identificado como K-314”, bateu no porta-aviões ao subir à superfície.

Dois helicópteros SH-3H Sea King inspecionaram o submarino apagado com óculos de visão noturna e boias sonoras e não viram dano sério. O Kitty Hawk parou e tentou falar por sinais luminosos com o cruzador Petropavlovsk, capitânia da força soviética, que não respondeu, registra o NHHC.

O histórico oficial e o arquivo russo não mencionam feridos. Segundo o site americano 19FortyFive, ninguém se machucou a bordo dos dois navios.

Sete meses depois, o susto foi de uma fragata brasileira

O ano de 1984 também teve um quase acidente desse tipo no Brasil. Em 11 de outubro, durante a Operação Unitas XXV, a fragata União (F45), com cerca de 220 pessoas a bordo, quase colidiu com o submarino nuclear americano USS Snook perto do Arquipélago de Abrolhos, na Bahia, segundo relatos de participantes publicados décadas depois.

Como o K-314, o Snook subiu de repente bem à frente da fragata da classe Niterói. Só uma manobra de emergência evitou o choque.

Rebocado para Chajma ou escoltado por um cruzador

A versão russa conta outra cena. Segundo o DeepStorm, o K-314 seguia o grupo de porta-aviões submerso quando foi atingido e só subiu à tona depois da pancada, com danos no casco leve, na carenagem da vela, no estabilizador de boreste e na hélice do propulsor auxiliar.

Sem propulsão, o submarino foi inspecionado pelo navio antissubmarino Vladivostok, rebocado até a baía de Chajma, perto de Vladivostok, e posto em dique seco, ainda segundo o arquivo russo. O reparo durou de março a agosto de 1984, e em 21 de agosto o K-314 voltou às provas de estaleiro.

A revista Proceedings, do Instituto Naval dos Estados Unidos, deu em maio de 1985 uma versão diferente, em sua revisão anual da Marinha soviética: o submarino teria seguido viagem devagar, escoltado por um cruzador da classe Kara. As duas versões não foram conciliadas pelas fontes.

Um rasgo de 40 metros no fundo do porta-aviões

O histórico oficial americano não descreve danos ao Kitty Hawk. O DeepStorm afirma que o porta-aviões rasgou o próprio fundo ao longo de 40 metros, perdeu boa parte do combustível pelo rombo e foi para o dique ao chegar à base.

O 19FortyFive dá uma versão mais modesta. Segundo o site, no dia seguinte autoridades americanas admitiram dano a um tanque de combustível de aviação abaixo da linha d’água, perto da proa a boreste, que passou a receber água do mar, sem que o navio deixasse de operar.

O mesmo site diz que, no reparo na baía de Subic, nas Filipinas, mergulhadores acharam pedaço de uma pá de hélice soviética e restos do revestimento antissonar presos ao casco, detalhe que atribui a históricos posteriores do navio. Esse revestimento serve para abafar o ruído que denuncia um submarino.

“Marinharia atipicamente ruim”, disse o almirante

Para a Marinha americana, a culpa foi dos soviéticos, que se puseram “numa posição muito perigosa”, registra o NHHC. O almirante James D. Watkins, chefe de Operações Navais, disse que o deslize do comandante do submarino era “o único mistério” do caso.

“Ele mostrou uma marinharia atipicamente ruim ao não se manter longe do Kitty Hawk. Isso deveria causar preocupação em Moscou”, afirmou Watkins, segundo o histórico oficial.

Do lado soviético, quem comandava o K-314 naquela noite era o capitão de 1ª classe Evseenko, chefe da 89ª tripulação, com o comandante da divisão, capitão de 1ª classe Belousov, a bordo, segundo o DeepStorm. Relatos russos dizem que Evseenko foi tirado do comando de submarinos e mandado para terra, informa o 19FortyFive.

Um reator lacrado em Razboinik e um porta-aviões desativado

O K-314 cumpriu uma patrulha de nove meses no Oceano Índico em 1985 e foi retirado do serviço ativo em 14 de março de 1989, segundo o DeepStorm. Em novembro de 2011, o bloco de três compartimentos com os reatores foi selado e levado para um abrigo em terra na baía de Razboinik, no Extremo Oriente russo.

O Kitty Hawk ainda navegou por mais 25 anos, da Guerra Fria ao Iraque, e foi desativado em 12 de maio de 2009, registra o NHHC. Na cronologia oficial, a noite de 1984 ocupa um único parágrafo, com o tremor no passadiço e um submarino sem luzes sumindo no escuro.

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