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Trump quer acabar com órgão da ONU que apoia reivindicação argentina pelas Malvinas e coloca Milei em situação delicada

O Brasil enfrenta um delicado equilíbrio diplomático: apoia a reivindicação argentina pelas Malvinas, mantém os EUA como parceiro estratégico e recebe no Rio de Janeiro aviões militares britânicos a caminho das ilhas.

Trump quer acabar com órgão da ONU que apoia reivindicação argentina pelas Malvinas e coloca Milei em situação delicada
Donald Trump e Javier Milei durante encontro oficial em Washington, em 14 de outubro de 2025. A iniciativa dos EUA sobre o Comitê de Descolonização da ONU expõe divergências diplomáticas envolvendo as Malvinas. Foto: The White House

O presidente argentino Javier Milei enfrenta uma contradição inesperada em sua aliança com Donald Trump. Enquanto Buenos Aires intensifica a disputa com o Reino Unido pelas Ilhas Malvinas, Washington quer extinguir um dos principais órgãos da ONU utilizados pela Argentina para defender sua reivindicação territorial.

A iniciativa ameaça um espaço diplomático que, há décadas, mantém a controvérsia sobre o arquipélago na agenda internacional.

O pedido foi apresentado em 15 de outubro, durante uma reunião da Quarta Comissão da Assembleia Geral das Nações Unidas. Segundo o comunicado oficial da ONU, a delegação norte-americana defendeu o encerramento do mandato do Comitê Especial de Descolonização, conhecido como C-24.

Trump quer extinguir comitê que cobra negociações sobre as Malvinas

Criado em 1961, o Comitê Especial de Descolonização acompanha territórios que permanecem sob administração de outros países.

Entre eles estão as Malvinas, administradas pelo Reino Unido e reivindicadas pela Argentina.

O organismo examina anualmente a disputa e aprova resoluções que defendem a retomada das negociações entre Londres e Buenos Aires.

A representante norte-americana Tammy Bruce argumentou que o comitê perdeu sua finalidade original. Segundo ela, mais de 80 antigas colônias conquistaram a independência, enquanto o órgão continua repetindo debates e consumindo recursos das Nações Unidas.

Washington também criticou os custos de seminários e viagens realizados pelo organismo.

A declaração não mencionou expressamente as Malvinas. Entretanto, o encerramento do C-24 afetaria um dos principais espaços internacionais utilizados pela Argentina para sustentar sua reivindicação.

Aliado de Trump, Milei enfrenta interesses divergentes em Washington

A situação é particularmente delicada para Javier Milei, que transformou sua proximidade com Trump em um dos pilares da política externa argentina.

Em setembro, o próprio presidente norte-americano havia sinalizado a possibilidade de rever a posição tradicional dos Estados Unidos sobre a disputa, despertando expectativas em Buenos Aires.

Agora, Washington defende o fim de um organismo que mantém a questão territorial em discussão.

Isso não significa que os Estados Unidos tenham reconhecido a soberania britânica. Mas expõe uma diferença concreta de interesses entre os dois governos.

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A contradição surge justamente quando Milei amplia sua ofensiva contra a exploração de petróleo nas ilhas.

Petróleo nas Malvinas coloca Argentina em confronto com interesses britânicos e norte-americanos

O governo argentino tenta impedir o avanço do projeto Sea Lion, desenvolvido pela britânica Rockhopper Exploration e pela israelense Navitas Petroleum em águas cuja soberania Buenos Aires reivindica.

Em setembro, Milei anunciou medidas jurídicas e econômicas contra empresas envolvidas em atividades consideradas ilegítimas no arquipélago.

A ofensiva também provocou preocupação entre companhias norte-americanas.

Segundo reportagem do El País, empresas dos Estados Unidos temem que a amplitude das restrições propostas pela Argentina afete seus negócios, mesmo sem participação direta na exploração petrolífera.

O episódio acrescenta uma dimensão econômica às divergências diplomáticas entre Buenos Aires e Washington.

Não há, contudo, evidências de que o pedido norte-americano para encerrar o comitê seja uma retaliação pelas medidas argentinas.

Reino Unido mantém presença militar com navio de guerra e caças Typhoon

Enquanto a disputa avança no campo diplomático, Londres mantém tropas e equipamentos militares nas Malvinas.

Entre 27 de setembro e 2 de outubro, forças britânicas realizaram o exercício Cape Upholder, que mobilizou aproximadamente 250 militares, um navio de patrulha e apoio de caças Eurofighter Typhoon.

Como mostrou a Revista Sociedade Militar na cobertura da operação britânica, as tropas simularam desembarques anfíbios e ataques inspirados na guerra de 1982.

As manobras não indicam, por si só, preparação para um novo conflito. Entretanto, demonstram a importância estratégica que Londres atribui à manutenção de suas capacidades militares no Atlântico Sul.

Brasil apoia reivindicação argentina, mas recebe aviões militares britânicos

O Brasil também ocupa uma posição sensível nessa disputa.

Brasília mantém relações estratégicas com os Estados Unidos, defende a retomada das negociações sobre as Malvinas e preserva relações diplomáticas com o Reino Unido.

Em abril, o Brasil e outros 23 países da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas) assinaram uma declaração que apoia a busca de uma solução pacífica para a controvérsia.

O documento também critica a exploração de petróleo e o reforço da presença militar britânica na região, conforme detalhou a Revista Sociedade Militar em reportagem sobre o posicionamento dos 24 países.

Mas a atuação brasileira apresenta outra particularidade.

Entre 14 e 16 de outubro, dois aviões militares Airbus A400M Atlas da Royal Air Force realizaram trajetos entre o Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, e a base britânica de Mount Pleasant, nas Malvinas.

A passagem dos aviões militares britânicos pelo Brasil recuperou uma controvérsia diplomática que já havia provocado questionamentos argentinos em 2017.

Não há confirmação pública de uma nova reclamação formal de Buenos Aires sobre os voos de outubro. O trânsito das aeronaves também não representa, por si só, apoio brasileiro à posição britânica sobre a soberania das ilhas.

ONU não aprovou extinção do comitê e reivindicação argentina continua

Apesar da iniciativa norte-americana, o Comitê Especial de Descolonização não foi dissolvido.

Na reunião de 15 de outubro, a Quarta Comissão aprovou mais de vinte projetos e uma decisão relacionados à descolonização, mas não determinou o encerramento do C-24.

A extinção do organismo dependeria de uma decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Mesmo nesse cenário, a histórica Resolução 2065, aprovada em 1965, não desapareceria automaticamente.

O documento reconhece a existência de uma disputa de soberania entre Argentina e Reino Unido e convida os dois governos a buscar uma solução negociada.

Londres, por sua vez, sustenta que os habitantes das ilhas têm o direito de decidir seu futuro político e rejeita negociar a soberania contra essa vontade.

A iniciativa de Trump ainda não alterou a situação das Malvinas na ONU. Mas expôs um limite da aproximação entre Washington e Buenos Aires: o alinhamento político entre dois presidentes não garante posições coincidentes quando estão em jogo soberania, recursos naturais e interesses estratégicos no Atlântico Sul.

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