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Por que a Ucrânia recusou 22 helicópteros de ataque australianos?

Jefferson Silva
Por Jefferson Silva 01/10/2026 às 10:15
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Por que a Ucrânia recusou 22 helicópteros de ataque australianos?
Helicóptero Tiger ARH A38-015 do Exército australiano em voo. Foto de Alex Layzell, Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0.

Equipamento americano sob controle dos EUA, hora de voo cara e só três países ainda usando o Tiger pesaram contra a doação, diz o embaixador ucraniano.

A Ucrânia recusou os 22 helicópteros de ataque Tiger que a Austrália aposentou porque eles levam a bordo equipamento americano que só mudaria de dono com aval dos Estados Unidos e porque mantê-los custaria caro demais, numa frota que quase ninguém mais opera. A explicação foi dada pelo embaixador da Ucrânia na Austrália, Vasyl Myroshnychenko, ao site ucraniano Militarnyi, em reportagem publicada nesta quinta-feira, 1º de outubro.

A transferência seria gratuita. Kiev pediu os helicópteros em 2024, o caso passou a ser analisado a sério em 2025 e a Ucrânia retirou o pedido no início de 2026, segundo o Militarnyi, meses antes de o Exército australiano encerrar os voos operacionais do Tiger, em 23 de setembro, em Darwin.

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O equipamento americano que travava a doação

O primeiro obstáculo citado pelo embaixador foi o ITAR, o regulamento dos Estados Unidos que controla a exportação de material de defesa com componentes americanos. Segundo Myroshnychenko, passar os Tiger a um terceiro país exigiria a aprovação de Washington, e retirar parte desse equipamento poderia limitar muito a capacidade de combate dos helicópteros.

O Tiger australiano tem dois tripulantes e é armado com canhão de 30 mm, foguetes não guiados de 70 mm e mísseis AGM-114 Hellfire II, de fabricação americana, segundo o Militarnyi. O embaixador não detalhou quais sistemas de bordo estariam sujeitos ao ITAR.

Só França, Alemanha e Espanha ficam com o modelo

O segundo argumento foi a escala. Com a saída da Austrália, só França, Alemanha e Espanha operam a família Tiger, desenvolvida pela Eurocopter, hoje Airbus Helicopters. Para usar os 22 aparelhos, a Ucrânia teria de montar um sistema próprio de treinamento, um estoque de peças e uma estrutura de manutenção para uma frota em extinção, segundo Myroshnychenko.

O Brasil já pagou essa conta com o Sabre

Manter poucos exemplares de um modelo com poucos usuários foi o que tirou de serviço o único helicóptero de ataque dedicado da Força Aérea Brasileira. A FAB incorporou em 2010 doze Mi-35M russos, batizados de AH-2 Sabre, e começou a desativá-los em março de 2022, com a decisão anunciada em fevereiro, antes da invasão russa da Ucrânia. Os helicópteros ficavam no Esquadrão Poti, em Porto Velho.

Um documento do Comando da Aeronáutica sobre o projeto já registrava que “o suporte logístico do projeto tem se revelado difícil”, porque os prazos russos de fornecimento e manutenção eram diferentes dos usados pela FAB. Uma publicação do Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica ligou a retirada a componentes exclusivos, baixa disponibilidade e manutenção cara.

A unidade de Porto Velho, sem aeronaves desde 2022, será reativada com Black Hawks americanos modernizados, voltados para busca e salvamento em combate e escolta. A FAB continua sem um helicóptero feito para atacar.

A hora de voo que estourou a meta

O custo foi o terceiro motivo apontado pelo embaixador. O Militarnyi lembrou que, em 2016, cada hora de voo do Tiger custava ao Exército australiano 30.335 dólares australianos, contra uma meta de 20 mil. Pela PTAX de venda de 30 de setembro de 2026 (A$ 1 = R$ 3,6012), o valor nominal de 2016 equivale a cerca de R$ 109,2 mil por hora, e a meta, a R$ 72 mil. O número vem da auditoria nº 11 de 2016-17 do Australian National Audit Office (ANAO), o órgão de auditoria do governo australiano.

A Alemanha também apressou a aposentadoria

Um dos três operadores restantes já marcou a saída. Em fevereiro de 2024, a Alemanha decidiu antecipar em cerca de seis anos a aposentadoria de sua frota de 55 Tiger, para o início de 2033, segundo a revista britânica FlightGlobal. O jornal polonês Rzeczpospolita lembra que os aparelhos alemães ficaram periodicamente proibidos de voar. França e Espanha seguem outro caminho e modernizam seus Tiger para o padrão Mk III, segundo o site Migflug.

Black Hawk e Bell entram na conta de Kiev

O Rzeczpospolita registrou, em 30 de setembro, uma análise do portal ucraniano Defense Express que pesou o custo da hora de voo, a disponibilidade de peças e o estado técnico dos helicópteros oferecidos. O treinamento de pilotos e os equipamentos completavam a lista de despesas que tornavam a oferta inviável, segundo o jornal.

No lugar do Tiger, a Ucrânia considera o UH-60 Black Hawk e estuda uma parceria com a americana Bell para produzir no país o UH-1Y Venom e o helicóptero de ataque AH-1Z Viper, de acordo com o Rzeczpospolita. O AH-1Z é o helicóptero de ataque usado hoje pelos fuzileiros navais dos Estados Unidos.

Os Taipan desmontados para virar sucata

Não é a primeira frota australiana que fica fora do alcance da Ucrânia. Em janeiro de 2024, o governo australiano recusou o pedido de Kiev pelos 45 helicópteros MRH-90 Taipan, retirados de serviço em setembro de 2023, depois de um acidente que matou quatro militares em julho daquele ano, segundo a rede pública ABC.

O ministro da Indústria de Defesa, Pat Conroy, disse que nenhum Taipan estava em condição de voo e que recuperá-los exigiria “um enorme investimento de dinheiro do contribuinte, tempo e recursos”. As aeronaves estavam sendo desmontadas para serem enterradas numa área militar, e as peças seriam vendidas à parte, de acordo com a ABC.

A despedida em Darwin depois de 22 anos

Os Tiger entraram no Exército australiano em 2004 no lugar dos Kiowa e dos Iroquois armados, segundo a revista Australian Defence Magazine. A aposentadoria estava prevista para 2027 ou 2028 e foi antecipada pela Estratégia de Defesa Nacional de 2026, de acordo com o Migflug.

O último voo operacional, em Darwin, teve dia aberto, sobrevoo de despedida e jantar formal do 1º Regimento de Aviação. “O fim das operações de voo do ARH Tiger é um momento significativo para o 1º Regimento de Aviação, mas também marca o início de um novo capítulo”, disse o major-general David Hafner, segundo a Australian Defence Magazine.

Apache em Townsville, Tiger sem destino anunciado

O substituto é o AH-64E Apache Guardian, da americana Boeing. A Austrália encomendou 29 unidades, recebeu a primeira em outubro de 2025 e já tem seis, com todas previstas até o fim de 2029, segundo a Australian Defence Magazine. Os primeiros disparos reais com o novo helicóptero foram feitos em julho de 2026, em Townsville.

Ao noticiar o fim dos voos, a Australian Defence Magazine não informou o que será feito com os 22 Tiger. O Migflug registrou que nenhum relatório sobre a aposentadoria confirma uma transferência, e a Ucrânia, que poderia recebê-los de graça, já tinha retirado o pedido meses antes do último voo.

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