Em meio ao maior número de conflitos globais dos últimos 80 anos da disparada dos gastos militares mundo afora, engatilhados pela guerra da Rússia contra a Ucrânia e pela postura expansionista e intervencionista dos EUA, o percentual que o Brasil destina de sua verba de defesa para a folha de pagamento volta e meia vira assunto na mídia.
Levantamento realizado pelo portal Revista Sociedade Militar com base no portal da transparência mostra que no Brasil, em 2025, a folha de pagamento consumiu 87,2% das despesas em defesa efetivamente pagas. Foram R$ 103,4 bilhões para ativos, inativos, pensões, assistências e benefícios, de um total de R$ 118,3 bilhões.
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Em dezenas de outros países, no entanto, a situação foi bem diferente. Na OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), formada por EUA, Canadá e mais 30 países europeus, a média da verba de defesa que vai para a folha de pagamento é de somente 35,7%.
No bloco, o maior gasto com pessoal de 2025 foi na Itália (61,25% da verba de defesa), seguida por Grécia (59,06%) e Bulgária (55,29%).
Na outra ponta, os países da OTAN que menos gastaram verba de defesa com folha de pagamento foram Luxemburgo (14,21%) , Finlândia (19,16%) e Dinamarca (19,22%).

Gastos com a defesa nacional é de apenas 9,7%
Se mais de 87% da verba de defesa do Brasil é gasta com folha de pagamento de militares ativos, inativos, pensionistas e servidores civis, pouco sobra para investir em outros projetos da ‘defesa nacional’.
Ou seja, em aquisição e modernização de blindados, submarinos, aeronaves e navios de guerra, por exemplo.
Em 2025, apenas 9,7% das despesas pagas pela defesa foram para a função ‘defesa nacional’, o que inclui o caça Gripen, o programa nuclear da Marinha e a aviação do Exército, mas também a operação do controle do espaço aéreo e a movimentação de militares. O número é pífio se comparado à média da OTAN no mesmo período (32,35%).
Os outros 3,12%, que somam cerca de R$ 3,695 bilhões, estão divididos entre:
- Divida externa de operações especiais – R$ 2,7 bilhões (2,26%)
- Outros encargos de operações especiais – R$ 516,4 milhões (0,44%)
- Gestão de riscos e de desastres – R$ 498,2 milhões (0,42%)

No caso do bloco do Atlântico Norte, os países que mais gastaram com aquisição de equipamentos militares, pesquisa e desenvolvimento foram Luxemburgo (57,04%), Polônia (50,71%) e Hungria (48,19%).
Os que menos gastaram foram Bélgica (13,36%), Portugal (19,17%) e Albânia (19,77%), todos acima dos 9,7% do Brasil.
A resolução do iminente problema do Brasil não é fácil, não bastando diminuir a quantidade de militares.
Para o professor de Ciência Política e Estudos Estratégicos Internacionais da UFRGS, Eduardo Svartman, o contingente de militares das Forças Armadas brasileiras não é grande quando se observa o tamanho do país e da população. Ele defende, na verdade, melhor distribuição do efetivo.
Além disso, a Defesa já vem diminuindo gradativa e deliberadamente o número de militares das Forças Armadas no Brasil. Levantamento feito pelo Revista Sociedade Militar mostrou que já houve queda de 6,1% no efetivo de 2020 a abril de 2026, justamente por conta das despesas.
Atualmente, o Brasil é o 20º país do mundo que mais promove gastos militares, segundo dados dos principais institutos e centros de estudos estratégicos em defesa do mundo.
Orçamento para a defesa cresce no Brasil e gastos com folha de pagamento cresce junto
O orçamento para a defesa está crescendo no Brasil e em 2027, caso seja aprovado pelo Congresso da forma em que foi proposto pelo governo federal, será maior até mesmo que o da Educação. Algo inédito ao menos nas últimas décadas.
Entretanto, mesmo com a diminuição do efetivo de militares, o gasto com a folha segue aumentando em valores absolutos.

Para o atual ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, o culpado pela equação anômala é o baixo investimento em equipamentos, o que faz, segundo ele, a estrutura de gastos ficar excessivamente concentrada em pessoal.
“A comparação que eu faço é que você tem um carro e um motorista: se o carro quebra e você não pode demitir o motorista, sua despesa de transporte passa a ser 100% com o motorista, porque o carro está quebrado”, argumentou o ministro durante uma reunião da comissão de Relações Exteriores e Defesa nacional do Senado em 30 de setembro de 2025.
Segundo Múcio, se o Brasil investir como os outros países estão investindo em defesa, esse percentual de mais de 80% vai cair para 60%, 50% e assim sucessivamente.
“Acontece que nós não estamos investindo em equipamento. Um percentual da nossa frota está parado, completamente parado. Culpa de quem? Culpa da prioridade que não foi dada à defesa. E como nós estamos, nunca se dará prioridade à defesa”, disse na oportunidade.
Ex-Comandante da FAB defende fortalecimento de atuação conjunta das Forças Armadas
Em artigo publicado no dia 10 de outubro na Folha de São Paulo, o ex-Comandante da FAB (Força Aérea Brasileira), Tenente-Brigadeiro do Ar da reserva Carlos de Almeida Baptista Júnior, defendeu que o Brasil precisa fortalecer a atuação conjunta de Exército, Marinha e FAB.
Não à toa, já revelamos no portal que há estudos em andamento sobre centralizar processos de compras e planejamento no Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, como forma de ganhar eficiência e gerar economia.
Baptista Júnior, que recentemente publicou o livro “Eu disse Não! Uma trincheira antigolpista”, em que conta como resistiu à tentativa de golpe de Estado no governo Jair Bolsonaro, também falou no artigo sobre orçamento.
“Outro desafio [para o novo ministro da Defesa] será assegurar previsibilidade orçamentária e continuidade aos programas estratégicos. Capacidades militares exigem planejamento de longo prazo, investimentos, desenvolvimento tecnológico e preparação, ultrapassando mandatos presidenciais”.
O Tenente-Brigadeiro do Ar da reserva disse que as capacidades militares não se resumem à aquisição de equipamentos e que também passam pela valorização dos militares.
“A profissão das armas possui exigências singulares, inclusive a disponibilidade para arriscar a própria vida em defesa da pátria. Remuneração adequada, condições dignas de trabalho, formação continuada e reconhecimento institucional são essenciais à motivação e à atração de novas gerações”.