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Tem Marinha, mas não tem mar: país vizinho do Brasil mantém dezenas de embarcações, participa de operações navais e sonha em recuperar acesso ao oceano

Sem litoral há 147 anos, país tem frota estimada em 173 embarcações, realiza exercícios com a Marinha brasileira e reivindica saída para o Pacífico.

Miguel Ángel Scovenna Rivero y Hornos
Por Miguel Ángel Scovenna Rivero y Hornos Atualizado em 03/11/2026 às 18:51·publicado em 03/11/2026
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Tem Marinha, mas não tem mar: país vizinho do Brasil mantém dezenas de embarcações, participa de operações navais e sonha em recuperar acesso ao oceano
Mesmo sem acesso soberano ao mar há 147 anos, a Bolívia mantém navios-patrulha armados e participa de operações navais com o Brasil. Foto: Armada Boliviana / Divulgação

A Bolívia possui uma das forças militares mais curiosas da América do Sul. Mesmo sem um único quilômetro de litoral marítimo há 147 anos, o país mantém uma Marinha com navios-patrulha armados, tropas especializadas e embarcações que participam de operações internacionais ao lado do Brasil.

E não se trata apenas de preservar uma tradição. A Armada Boliviana vigia fronteiras, combate atividades ilegais, treina militares para operar em rios e investe em projetos para ampliar sua ligação com o Atlântico. Tudo isso enquanto mantém uma reivindicação histórica contra o Chile, país que ocupou seu litoral durante uma guerra no século XIX.

Mesmo sem litoral, Bolívia mantém navios-patrulha armados, tropas especiais e treinamento com drones

Mapa ilustrativo da Bolívia, sem acesso ao mar, com fronteiras atuais e destaque para o antigo litoral no Oceano Pacífico perdido para o Chile em 1879.
A Bolívia perdeu seu litoral durante a Guerra do Pacífico, iniciada em 1879, mas mantém uma Marinha ativa, com navios-patrulha e operações militares conjuntas com o Brasil.

O tamanho da força naval chama a atenção. Segundo estimativa do Anuario de la Defensa Naval en América Latina y España 2026, a Bolívia possui aproximadamente 173 embarcações, entre patrulheiras, lanchas rápidas, transportes e unidades de apoio.

Isso não significa que o país tenha 173 navios de guerra. Grande parte da frota reúne embarcações menores, projetadas para navegar em rios e lagos, onde a Armada desenvolveu capacidades próprias de patrulhamento e transporte.

Entre seus principais navios de patrulha está a LP-501 Santa Cruz de la Sierra, de origem norte-americana, com aproximadamente 21 metros de comprimento. Inventários históricos registram armamento com metralhadoras pesadas, embora a configuração atual não esteja confirmada.

A instituição também incorporou seis patrulheiras chinesas Tipo 928YC, além de operar lanchas rápidas de assalto fluvial.

Sua estrutura inclui unidades de infantaria naval e grupos especializados, como os Diablos Azules, preparados para missões em regiões de difícil acesso.

Em outubro de 2026, a Armada anunciou a conclusão de seu primeiro curso de Aerointeligência Naval, voltado ao emprego de drones em atividades de vigilância.

Essa estrutura permite manter presença militar na bacia amazônica, nos rios próximos ao Brasil e no Lago Titicaca, compartilhado com o Peru.

Marinha do Brasil opera com navios-patrulha bolivianos em exercícios que mobilizam centenas de militares

Militar da Armada Boliviana conversa com integrante da Marinha do Brasil durante atividade de cooperação naval, com embarcações militares ao fundo.
Militares da Armada Boliviana e da Marinha do Brasil durante atividade conjunta. Mesmo sem litoral marítimo, a Bolívia mantém uma força naval ativa e participa de exercícios com militares brasileiros. Marinha do Brasil / Divulgação

A capacidade operacional boliviana ganhou uma demonstração concreta em 2026, quando seus navios participaram de exercícios militares em águas brasileiras.

Entre 24 de agosto e 2 de setembro, Brasil e Bolívia realizaram a Comissão BrasBol 2026, entre Ladário, em Mato Grosso do Sul, e Puerto Busch, na Bolívia.

Segundo a Marinha do Brasil, a operação reuniu sete navios e mais de 400 militares, com treinamentos destinados a aprimorar a cooperação, o patrulhamento e a segurança da navegação.

Três navios-patrulha bolivianos participaram: Santa Cruz de la Sierra, Puerto Quijarro e Puerto Suárez.

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Durante as atividades, militares realizaram exercícios de defesa, vigilância das margens e controle do tráfego fluvial. Um comboio comercial com 16 barcaças também integrou o treinamento, conforme detalhado em reportagem sobre a operação BrasBol 2026.

Mas essa não foi a única demonstração de cooperação naval.

Em abril, a Bolívia participou do ACRUX XII, exercício multinacional realizado em águas brasileiras com forças da Argentina, do Paraguai e do Uruguai.

A operação mobilizou mais de 700 militares e 18 unidades fluviais dos cinco países, incluindo as mesmas três patrulheiras bolivianas.

Esses navios também receberam autorização oficial para navegar em águas brasileiras, reforçando a integração operacional entre as duas Marinhas.

Sem litoral há 147 anos, Bolívia investe em rota para o Atlântico e mantém reivindicação contra o Chile

A existência dessa força naval está diretamente ligada à geografia e à história boliviana.

Em 1879, durante a Guerra do Pacífico, o Chile ocupou o litoral da Bolívia. O Tratado de Paz de 1904 formalizou a situação territorial e garantiu ao país direitos de trânsito comercial.

Desde então, a Bolívia reivindica uma saída soberana para o Pacífico, objetivo que permanece previsto em sua Constituição.

A disputa chegou à Corte Internacional de Justiça, que decidiu, em 2018, que o Chile não tinha obrigação jurídica de negociar esse acesso nos termos apresentados pela Bolívia.

Enquanto a reivindicação histórica continua, a Armada trabalha para fortalecer uma alternativa de navegação conectada ao Oceano Atlântico.

Em fevereiro de 2026, a instituição anunciou a construção de um rebocador de 28 metros, equipado com três motores de 1.000 cavalos de potência, destinado à Hidrovia Paraguai-Paraná.

A conclusão estava prevista para novembro de 2026, mas ainda não há confirmação de entrega.

A Bolívia também desenvolve projetos de infraestrutura naval em Puerto Quijarro, próximo à fronteira brasileira, para ampliar sua capacidade logística nessa importante rota fluvial.

Assim, enquanto busca recuperar uma saída soberana para o Pacífico, o país utiliza os rios sul-americanos para manter sua presença naval e fortalecer a conexão comercial com o Atlântico.

A Bolívia continua sem litoral, mas seus navios-patrulha seguem navegando ao lado da Marinha brasileira — uma demonstração de que sua força naval tem funções concretas, mesmo em um país que perdeu o mar há quase um século e meio.

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