Durante anos, organizações independentes denunciaram que guerrilheiros colombianos mantinham acampamentos e circulavam pelo território venezuelano. Agora, uma operação atribuída ao Exército venezuelano teria bombardeado uma dessas instalações, levantando uma pergunta: o que mudou na relação entre Caracas e o ELN?
O ataque teria ocorrido em 30 de outubro de 2026, no estado de Apure, próximo à Colômbia. Os relatos apontam até 19 mortos, embora uma organização de direitos humanos tenha conseguido documentar nove vítimas até o momento.
Quase simultaneamente, os Estados Unidos mobilizaram três drones MQ-9 Reaper, um avião C-17 Globemaster III, dois helicópteros Black Hawk e cerca de 350 militares na Colômbia, ampliando a cooperação militar com o país vizinho.
Apesar da proximidade entre os acontecimentos, não há provas de que Washington tenha participado do suposto bombardeio ou coordenado a operação com Caracas.
Exército venezuelano teria atacado o ELN após anos de denúncias de tolerância à guerrilha

O bombardeio teria atingido um acampamento em Buena Vista del Meta, município de Pedro Camejo, numa região venezuelana próxima ao departamento colombiano de Vichada.
Segundo a organização FundaREDES, militares venezuelanos atacaram instalações atribuídas ao Exército de Libertação Nacional. O coordenador regional da entidade, Juan Francisco García Escalona, relatou que nove corpos foram transportados para San Fernando de Apure, enquanto outros dez permaneceriam na área.
Neste domingo, 1º de novembro, o diretor da FundaREDES, Javier Tarazona, informou que seus representantes conseguiram documentar nove mortes e continuavam investigando os demais relatos.
Conforme publicou o jornal venezuelano El Pitazo, a organização cobrou explicações das autoridades sobre o número de vítimas e o alcance da operação. Caracas ainda não apresentou uma confirmação oficial detalhada.
O episódio chama a atenção pelo histórico do ELN na Venezuela. Há mais de duas décadas, organizações civis denunciam a presença da guerrilha no país e possíveis relações de colaboração com setores das autoridades venezuelanas.
A especialista em assuntos militares Rocío San Miguel, presidente da organização Control Ciudadano, avalia que o ataque pode indicar uma mudança na postura das Forças Armadas venezuelanas diante do grupo.
Outro episódio recente ajuda a compreender as tensões na fronteira. Em 17 de outubro, uma patrulha de oito militares venezuelanos entrou em uma área minada no estado de Zulia. A explosão atingiu um sargento, que perdeu uma perna. Integrantes da unidade também denunciaram uma ordem para recuar sem reagir.
A denúncia sobre o sargento ferido e a retirada da patrulha venezuelana surgiu apenas 13 dias antes do bombardeio relatado em Apure. Entretanto, não há confirmação de que o ELN tenha sido responsável pela explosão nem de que os episódios estejam relacionados.
EUA enviam drones MQ-9 Reaper, C-17 e Black Hawk para operações militares na Colômbia

Enquanto surgiam os relatos sobre a ofensiva venezuelana, Washington reforçava sua presença militar em território colombiano.
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Em 31 de outubro, três drones MQ-9A Reaper enviados pelos Estados Unidos foram apresentados no Forte Militar de Tolemaida, diante do presidente colombiano Abelardo de la Espriella e de autoridades militares.
Essas aeronaves conseguem realizar missões prolongadas de inteligência, vigilância e reconhecimento. Dependendo da configuração, também podem transportar armamentos guiados para ataques de precisão.
No entanto, os três Reaper chegaram desarmados. As equipes colombianas recebem treinamento para operar os sistemas, enquanto os equipamentos passam por procedimentos técnicos de integração.
O reforço inclui ainda dois helicópteros UH-60 Black Hawk, transportados por um avião militar C-17 Globemaster III, além de aproximadamente 350 soldados norte-americanos.
Os militares participam do exercício multinacional Vanguardia del Sur 2026, ao lado de mais de 400 integrantes das forças colombianas. A programação prevê atividades até 11 de novembro.
O desembarque do C-17, dos helicópteros Black Hawk e de centenas de militares norte-americanos integra um treinamento conjunto que envolve operações terrestres, defesa contra drones e procedimentos militares coordenados.
O exercício já estava programado antes do ataque relatado em Apure. Assim, a chegada das aeronaves não demonstra qualquer ligação operacional com a ofensiva atribuída às forças venezuelanas.
Presença de 26 grupos armados no sul da Venezuela amplia atenção sobre fronteiras do Brasil
A movimentação militar ocorre em uma região onde organizações guerrilheiras e criminosas ultrapassam fronteiras e disputam o controle de áreas estratégicas.
Uma investigação divulgada em julho pela organização SOS Orinoco, com apoio da Fundação para o Devido Processo, identificou indícios da atuação de pelo menos 26 grupos armados em 20 municípios do sul da Venezuela, a partir de informações reunidas entre 2022 e 2026.
O levantamento inclui o ELN, dissidências das FARC e organizações envolvidas em mineração ilegal, extorsão e controle de rotas clandestinas.
A presença desses grupos em regiões venezuelanas próximas ao território brasileiro já havia levantado preocupações sobre a segurança das fronteiras de Roraima e Pará.
Embora o bombardeio tenha ocorrido longe do Brasil, uma eventual mudança na atuação das forças venezuelanas pode alterar as rotas utilizadas por organizações armadas na região.
Até agora, porém, não existem evidências de que o ataque em Apure tenha provocado deslocamentos de guerrilheiros em direção ao território brasileiro.
A pergunta que permanece é por que forças venezuelanas teriam atacado agora uma guerrilha cuja presença no país foi denunciada durante anos.
O bombardeio representa uma operação isolada ou uma mudança na postura militar de Caracas diante do ELN? Enquanto as autoridades venezuelanas não esclarecem o episódio, Washington amplia sua presença na Colômbia com drones de grande autonomia, helicópteros e tropas especializadas.