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FAB reconhece falta de especialistas para reparar aeronaves e dependência de cursos de alto custo no exterior, mesmo após anos de planejamento para formar técnicos no Brasil

Mesmo com treinamento nacional previsto há anos, Aeronáutica reconhece carência técnica que pode afetar aeronaves e elevar custos.

FAB reconhece falta de especialistas para reparar aeronaves e dependência de cursos de alto custo no exterior, mesmo após anos de planejamento para formar técnicos no Brasil
Militares da Força Aérea Brasileira trabalham na manutenção do motor de uma aeronave em hangar. Imagem de arquivo utilizada para ilustrar os desafios de capacitação técnica na FAB. Foto: FAB

A Força Aérea Brasileira (FAB) reconheceu uma deficiência que atinge uma área sensível de sua capacidade operacional: a falta de capacitação interna suficiente para reparar componentes de aeronaves fabricados com materiais compostos. O problema obriga a instituição a enviar militares ao exterior, eleva os custos de treinamento e pode afetar a disponibilidade das aeronaves.

O alerta vai além das despesas. Em documento oficial publicado em outubro de 2026, a própria Aeronáutica identifica riscos à segurança de voo e à integridade estrutural associados à insuficiência de especialistas.

A revelação chama atenção por outro motivo: a FAB já previa treinamento nacional nessa área em 2021, com referências curriculares que remontam a 2010. Mesmo assim, a instituição continua apontando uma carência que considera necessário enfrentar.

FAB admite dependência de cursos no exterior e aponta riscos à segurança de voo

Profissional realiza trabalho técnico de reparação em componente de aeronave durante atividade de manutenção aeronáutica.
Profissional realiza trabalho de reparação em componente aeronáutico na Inglaterra. A atividade ilustra a especialização técnica necessária para manutenção de aeronaves, área em que a FAB reconheceu dependência de cursos no exterior.

O reconhecimento aparece na Portaria COMGAP nº 921, de 13 de outubro de 2026, que aprovou o projeto pedagógico do Curso de Reparo em Material Composto (CRMC).

No artigo 3º, a Aeronáutica afirma que carece de capacitação interna para realizar esses reparos e, por isso, precisa enviar militares ao exterior em busca do conhecimento necessário.

Segundo o documento, essa alternativa é dispendiosa e não forma especialistas em quantidade suficiente para atender às atividades da instituição.

O diagnóstico também aponta dificuldades para executar procedimentos específicos de manutenção e identifica consequências potenciais para a disponibilidade operacional das aeronaves.

O aspecto mais delicado está na relação entre qualificação técnica, segurança de voo e integridade estrutural. Materiais compostos exigem métodos específicos para identificar danos, avaliar sua extensão e executar reparos conforme os manuais dos fabricantes.

Falhas nesses procedimentos podem comprometer componentes importantes. Por isso, a formação especializada é essencial para manter os padrões de segurança exigidos pela aviação militar.

Isso não significa que a FAB tenha admitido operar aeronaves inseguras. Tampouco o documento comprova acidentes decorrentes dessa deficiência. O que existe é um risco técnico reconhecido oficialmente como parte da justificativa para ampliar a capacitação.

FAB já previa formação em 2021 e tinha currículo desde 2010

Militares da FAB participam de treinamento sobre inspeção e reparação de materiais compostos no PAMA-SP, em 2016.
Militares da Força Aérea Brasileira participam de atividade de capacitação sobre inspeção e reparação de materiais compostos no PAMA-SP, em 2016, com especialistas do consórcio holandês ICRIT.

A documentação anterior revela que a preocupação com esses reparos não é recente.

Na TCA 37-11/2021, a Aeronáutica já incluía o mesmo Curso de Reparo em Material Composto entre suas atividades de formação.

A programação previa aulas presenciais no Parque de Material Aeronáutico de São Paulo (PAMA-SP), entre 8 e 26 de março de 2021, com duração de 15 dias letivos e previsão de cinco a dez participantes.

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O documento também fazia referência à ICA 37-410, publicada em 8 de dezembro de 2010, como currículo mínimo da especialidade.

Portanto, a FAB já possuía antecedentes formais de treinamento nessa área muito antes do reconhecimento divulgado em outubro de 2026.

A programação de cursos de 2026 também contemplava uma edição do CRMC no PAMA-SP, prevista para março. Isso mostra que a atividade continuava presente no planejamento da Força.

Entretanto, a existência dessas previsões não esclarece quantas turmas foram efetivamente realizadas, quantos profissionais concluíram os treinamentos ou por que a capacidade interna permanece insuficiente.

É justamente esse contraste que chama atenção: apesar de anos de planejamento e de um currículo anterior, a FAB ainda reconhece a necessidade de recorrer a cursos caros no exterior.

O novo projeto pedagógico estabelece uma formação de 100 horas presenciais, distribuídas por três semanas, com atividades de inspeção, identificação de defeitos, avaliação de danos e reparação de componentes.

O Instituto de Logística da Aeronáutica (ILA), em Guarulhos, aparece como responsável pela formação. A documentação identifica necessidades em diferentes organizações militares, incluindo unidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Amazonas.

A aprovação do programa, porém, não informa quantos especialistas serão formados inicialmente nem estabelece um prazo para eliminar a dependência estrangeira.

Falta de capacitação expõe desafio para manter aeronaves disponíveis

A necessidade de ampliar a formação interna também aparece em outros programas da Aeronáutica.

Em outubro, a FAB aprovou um curso próprio de 67 horas para profissionais ligados ao KC-390, buscando reduzir a necessidade de adquirir novos pacotes de treinamento da Embraer.

Outro programa envolve o F-39 Gripen, para o qual a instituição estabeleceu uma formação nacional destinada a complementar o treinamento oferecido pela sueca Saab.

São iniciativas distintas, mas que evidenciam a importância de manter conhecimento técnico especializado dentro da própria Força.

No caso dos materiais compostos, a consequência pode alcançar diretamente a rotina de manutenção: sem profissionais suficientes, determinados reparos podem enfrentar limitações ou demoras, com possíveis reflexos na disponibilidade das aeronaves.

A instrução oficial ICA 37-1132 detalha as competências exigidas dos profissionais, incluindo técnicas de inspeção e reparação de estruturas fabricadas com esses materiais.

Entretanto, o documento não apresenta valores gastos com cursos internacionais, estimativas de economia ou metas para superar a escassez de especialistas.

A FAB já reconheceu o problema, identificou suas consequências e aprovou uma nova formação. O que ainda não demonstrou é quando terá profissionais suficientes para atender às necessidades de manutenção sem depender de capacitação cara no exterior.

Para uma Força que precisa manter suas aeronaves disponíveis e em condições seguras de operação, essa resposta tem importância muito maior do que a simples abertura de um novo curso.

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