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Cúpula militar entre os 1% mais ricos: os números reais sobre a renda ao longo da carreira e que mostram os almirantes na elite do país

Cúpula militar entre os 1% mais ricos: os números reais sobre a renda ao longo da carreira e que mostram os almirantes na elite do país
Homem de terno descendo de veículo em área militar - imagem ilustrativa

Um cruzamento de dados realizados com as tabelas de remuneração de militares da ativa da marinha, contando salário por salário, mês a mês, ao longo de 35 anos de de farda, chega a um número que raramente aparece em qualquer balanço oficial: utilizando valores de abril de 2026, um praça que ingressa como Aprendiz Fuzileiro Naval na Marinha do Brasil e se aposenta como Suboficial, após 35 anos de serviço, acumula, em média, o recebimento de R$ 2.809.634,18 em remuneração líquida, considerando o 13º salário e os interstícios mínimos de cada graduação.

Já um oficial que segue a carreira “padrão”, da Escola Naval até o posto de Capitão-de-Mar-e-Guerra, também indo para a reserva aos 35 anos de serviço, soma em média R$ 6.538.196,60.

Quem sobe o degrau final, até o Almirantado, Contra-Almirante, Vice-Almirante e, no topo, Almirante-de-Esquadra, em uma carreira de em média 47 anos, pode acumular, sem contar os adicionais recebidos por transferências, cursos no exterior etc., aproximadamente R$ 10.638.561,77 em vencimentos líquidos.

Os números foram apurados cruzando as tabelas de interstício de planejamento da Marinha, que definem o tempo mínimo de permanência em cada posto e graduação, com a remuneração média líquida (já descontados os encargos obrigatórios) apurada para abril de 2026. O cálculo, que pode variar de militar para militar, aplica os 13 salários pagos por ano, prática padrão no funcionalismo e nas Forças Armadas e deixa de lado os valores recebidos com diárias, cursos no exterior, transferências etc.

A pirâmide estreita do topo

O detalhe que poucos brasileiros conhecem é o quão estreito é o topo dessa pirâmide. Hoje na Marinha apenas 85 almirantes estão na ativa recebendo remuneração nesses postos, segundo o levantamento cruzado de cadastro, tabelas de lotação e folha de pagamento de abril de 2026.

E esse pequeno grupo não está apenas no topo da hierarquia militar, está no topo da pirâmide de renda do país inteiro. Segundo o IBGE, pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua de 2025, é preciso uma renda em torno de R$ 24.973 por mês para entrar no seleto grupo do 1% mais rico do Brasil.

O Almirante-de-Esquadra, com remuneração líquida média de R$ 27.568,01, e o Vice-Almirante, com R$ 25.107,31, cumprem essa marca com folga. O Contra-Almirante, com R$ 23.088,47, fica bem próximo, na fronteira desse grupo, ainda assim, um patamar de renda que menos de 1 em cada 100 brasileiros alcança.

O outro lado da farda, e do país

Esse contraste fica ainda mais evidente quando se olha para o outro extremo da pirâmide salarial brasileira, onde está a maior parte da população, inclusive boa parte dos praças em início de carreira. Levantamentos recentes mostram que quem ganha até R$ 5 mil por mês vive uma realidade financeira completamente diferente da dos oficiais superiores e generais.

Segundo estudo da Serasa, o brasileiro com renda próxima da média nacional (R$ 3.722) compromete cerca de 95% do salário só com despesas essenciais, moradia, alimentação, transporte e contas básicas, sobrando muito pouco para poupança. O Instituto Locomotiva mostra que as famílias das classes D e E, com renda entre R$ 1.300 e R$ 5.200, gastam sozinhas 50,7% da renda apenas com comida, mais de três vezes a proporção das famílias que ganham acima de R$ 13 mil.

E o Dieese calculou que, para sustentar dignamente uma família de quatro pessoas em abril de 2026, seria necessário um salário mínimo de R$ 7.890,50, quase cinco vezes o piso oficial vigente.

Na prática, isso significa que um Marinheiro ou Cabo, no início da carreira na Marinha, este último com remuneração líquida média de R$ 3.7 mil, embora enfrentem uma rotina de trabalho muito dura, com escalas de serviço muito apertadas, sem direito a pagamento de horas extras, passam pelo mesmo aperto financeiro que qualquer trabalhador brasileiro na mesma faixa de renda e o que é pior, quase todo o pagamento evapora em aluguel, comida, transporte e roupas antes mesmo de chegar o próximo salário.

É só a partir da consolidação na carreira nas últimas graduações,1º sargento e Suboficial, e principalmente se virar oficial, que esse militar passa a ter alguma margem real para tentar planejar o futuro.

O retrato do patrimônio: o caso de um General de Brigada

Números agregados dão a dimensão da desigualdade, mas um caso concreto ilustra melhor o que ela significa na prática. Ao concorrer a um cargo eletivo, passo que obriga qualquer cidadão a declarar publicamente seu patrimônio à Justiça Eleitoral, um General de Brigada do Exército Brasileiro que concorreu para deputado federal, sendo eleito em 2018, revelou um retrato e o tamanho da possibilidade de acumulação e renda de um oficial general. São vários imóveis declarados, entre apartamentos, casas, terrenos e uma chácara, espalhados por cinco estados diferentes.

A lista de bens imóveis declarada inclui:

  • Apartamento em São Paulo (SP)
  • Apartamento em Brasília (DF)
  • Terreno em Taubaté (SP)
  • Outro terreno em Taubaté (SP)
  • Apartamento em Taubaté (SP)
  • Casa em Taubaté (SP)
  • Casa térrea em Guarujá (SP)
  • Chácara na Fazenda Santa Prisca, em Brasília (DF)
  • Terreno em Taubaté (SP)
  • Apartamento em Porto Alegre (RS)
  • Terreno em Taubaté (SP)
  • Terreno da Fazenda Santa Prisca, em Brasília (DF)
  • Apartamento no Rio de Janeiro (RJ)
  • Outro apartamento no Rio de Janeiro (RJ)
  • Casa residencial (50%) em Votuporanga (SP)
  • Apartamento no Rio de Janeiro (RJ)
  • Outra chácara na Fazenda Santa Prisca, em Brasília (DF)

Ao todo, são 17 imóveis declarados, sem contar veículos, contas-poupança, previdência privada e depósitos bancários que também constam da mesma declaração. É o retrato da possibilidade de evolução patrimonial daqueles que cocupam o topo da carreira nas Forças Armadas. Mas, algo à anos-luz de distância da vida financeira dura de um soldado, cabo ou sargento, que fazem parte da mesma tropa.

O outro lado da farda

Do outro lado dessa mesma farda, é comum que soldados, cabos e sargentos, com salário líquido baixo, busquem morar em bairros periféricos ou em áreas de risco justamente para pagar aluguéis mais baixos, já que a remuneração inicial mal cobre moradia, transporte e alimentação nas regiões mais centrais e valorizadas onde muitas vezes ficam as unidades onde servem.

Não é exagero dizer que general e soldado vestem o mesmo uniforme, mas vivem em mundos completamente diferentes.

Uma instituição, dois mundos

O retrato que esses números formam é o de uma única instituição que reproduz, dentro de si, o abismo de renda de todo o país. Na base, um Aprendiz Fuzileiro Naval com salário de ingresso que mal cobre o básico. No topo, 85 fardados que, sozinhos, já valem um lugar entre o 1% mais rico do Brasil e cuja soma de remuneração ao longo da carreira completa pode ultrapassar os R$ 10 milhões de reais.

Fontes: cruzamento de dados de Cadastro e Remuneração de militares da ativa (abril/2026); tabelas de interstício de planejamento de carreira da Marinha do Brasil; IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua, 2025); Dieese, Salário Mínimo Necessário (abril/2026); Serasa, pesquisa de custo de vida (2026); Instituto Locomotiva/Grupo Amanhã, pesquisa de consumo por classe social; declaração de bens de candidatura apresentada à Justiça Eleitoral em 2018.

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Gavião
Gavião
13/08/2026 07:12

A gente precisa “unificar” entendimentos, até mesmo para ter comparação com o mundo civil. Quando se fala em salário, é salário total, ou seja o BRUTO. Só se pode comparar bruto x bruto. Mas está questão eu vejo de outra forma. Tem que comparar o salário de um general com um executivo, e neste sentido, não ganha muito.

Carlos Cesar
Carlos Cesar
13/08/2026 07:01

Além dos salários fora do compasso em relação aos demais militares, de Capitão a graduados em geral, tem também as OS de viagem só no papel.

Sgt-Ten-Maj Peçanha
Sgt-Ten-Maj Peçanha
12/08/2026 20:24

Um Praça recebendo R$ 2.809.634,18 em remuneração líquida, considerando o 13º salário ao final da carreira?!?! Impossível!!!! Só se for nas FFAA de Júpiter!!!!

SARA
SARA
12/08/2026 20:05

Essa matéria não tem sentido. Se quem ganha 24 mil está entre os 1% mais rico, como em seguida diz que a classe b se compõe por quem ganha 26 mil?

Sub Preterido
Sub Preterido
12/08/2026 19:46

A cúpula aproveitou em 2019 o governo do Minto para colocar em prática o plano maquiavélico no PL1645, hoje lei 13.954 para separar de vez a cúpula da tropa que carregam o piano nas forças armadas, usando da máxima que sempre foi o “farinha pouca nosso pirão primeiro. Não esquecendo das pensionistas de praças que foram as mais sacrificadas nos contracheques.

Robson Augusto

Robson Augusto

Editor da Revista Sociedade Militar - Militar da reserva remunerada, jornalista e cientista social. Especialista em inteligência e marketing. Escreve sobre militares, geopolítica, tecnologia militar, forças armadas, polícia militar, segurança pública em geral e artes marciais, como Jiu-jitsu e MMA. Análises sobre geopolítica e política brasileira. Autor do livro Militares pela Cidadania