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Generais, almirantes e brigadeiros emplacaram uma norma para receber acima do teto constitucional, acumulando valores líquidos que somam mais de 50 mil reais mensais

Generais, almirantes e brigadeiros emplacaram uma norma para receber acima do teto constitucional, acumulando valores líquidos que somam mais de 50 mil reais mensais
General Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva em audiência na Comissão de Relações Exteriores do Senado. Fonte: Agência Senado

Até março de 2021, durante o governo de Jair Bolsonaro, os militares das Forças Armadas eram também sujeitos ao Teto Constitucional. Mas, em abril daquele ano a cúpula das Forças Armadas descobriu uma forma legal de abrir uma excessão à regra, e o resultado desde então aparece, mês a mês, no Portal da Transparência.

Um levantamento dos contracheques oficiais mostra que o atual comandante do Exército, general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, por exemplo, recebeu em abril de 2026 um total líquido de R$ 51.268,70, quase R$ 5 mil acima do limite de R$ 46.623,00 que deveria valer para qualquer servidor público do país.

Outro oficial general, o General de Exército Marco Antônio Amaro dos Santos, Ministro Chefe do GSI, recebeu em abril de 2026 um líquido total de R$ 60.370,98.

O mecanismo por trás dessa conta ficou conhecido como “teto duplex”: a brecha permite somar dois pagamentos de fontes diferentes sem que a soma seja travada pelo teto constitucional. Criada durante o governo Bolsonaro, a regra virou rotina na cúpula militar e é hoje uma das maiores fontes de constrangimento fiscal dentro das Forças Armadas.

O que é, afinal, o “teto duplex”

Até 2021, quando um militar da reserva ou um servidor aposentado ocupava um cargo comissionado, os dois valores a aposentadoria (ou reforma) e o salário do cargo — eram somados antes de aplicar o teto constitucional. Se o total ultrapassasse o limite, o excedente era cortado, no chamado “abate-teto”.

A Portaria nº 4.975, de 29 de abril de 2021 do Ministério da Economia mudou essa lógica. Em vez de somar as duas remunerações e aplicar um único teto, passou a valer o cálculo em separado: cada fonte pagadora aplica o teto isoladamente sobre o próprio valor. Na prática, isso dobra o limite efetivo para quem acumula dois vínculos, daí o apelido “teto duplex”.

Art. 4º O limite remuneratório incidirá isoladamente em relação a cada um dos vínculos nas seguintes situações: I – acumulação entre vínculo de aposentado ou militar na inatividade com cargo em comissão ou cargo eletivo; II – acumulação entre vínculo de aposentado ou militar na inatividade com cargo ou emprego público admitido constitucionalmente“.

A mudança não passou sem resistência interna. O então ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a se opor publicamente à criação da brecha, alegando defender a austeridade fiscal, mas foi voto vencido dentro do próprio governo.

O contracheque do comandante do Exército, item por item

O caso do general Tomás Miguel Miné é o exemplo mais didático do funcionamento da regra, porque ele recebe simultaneamente por dois vínculos distintos com a União.

Como oficial general transferido para a reserva ao assumir o comando, procedimento previsto na Lei Complementar 97/1999, ele recebe uma remuneração militar de reforma. Em abril de 2026, essa ficha mostrou remuneração bruta de R$ 42.661,90, com descontos de IRRF (R$ 8.548,44), pensão militar (R$ 4.942,89) e fundo de saúde (R$ 1.235,72), resultando em R$ 27.934,85 líquidos.

Paralelamente, como ocupante da função comissionada de comandante do Exército, ele recebe uma remuneração civil separada: bruto de R$ 31.919,27, com descontos de IRRF (R$ 7.597,35) e PSS/RPGS (R$ 988,07), fechando em R$ 23.333,85 líquidos.

Remunerações recebidas em abril de 2026 pelo genral Tomás Miné Ribeiro Paiva
Remunerações recebidas em abril de 2026 pelo genral Tomás Miné Ribeiro Paiva

Somadas, as duas fichas, cada uma individualmente abaixo do teto de R$ 46.623,00, resultam em R$ 51.268,70 líquidos por mês, valor que nenhum outro servidor do Executivo, sem esse duplo vínculo, poderia legalmente receber.

Uma brecha desenhada sob medida para a cúpula militar

O truque não é acidental: a legislação militar permite explicitamente que um oficial da reserva assuma o comando de uma força, o que já garante o acúmulo dos dois pagamentos. O “teto duplex” apenas retirou o limite que impedia essa soma de ultrapassar o teto constitucional.

Um estudo do República.org e do Movimento Pessoas à Frente, divulgado em novembro de 2025, identificou 2.156 militares, entre ativos, da reserva e pensionistas, recebendo acima do teto constitucional entre agosto de 2024 e julho de 2025, o equivalente a 17,7% de todos os supersalários do funcionalismo federal.

O projeto no Congresso e o que pode mudar

A folga chamou a atenção de parlamentares. Tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 4.077/24, que propõe limitar o total de “penduricalhos”, diárias, licenças-prêmio convertidas em dinheiro e acúmulo de funções a 10% do teto constitucional, hoje algo em torno de R$ 4.662,00 por mês.

A proposta não ataca diretamente o teto duplex em si, mas mira o conjunto de benefícios que, somados a ele, elevam ainda mais a remuneração da alta cúpula. Segundo estimativas citadas por veículos especializados, a mudança afetaria menos de 100 oficiais-generais nas três forças, menos de 1% do efetivo militar do país.

Enquanto o projeto não avança, o retrato segue o mesmo: no mesmo mês em que um recruta recebe pouco mais de um salário mínimo, o comandante do Exército como qualquer outro oficial-general em situação semelhante segue somando duas fichas de pagamento que, juntas, ultrapassam com folga o teto que deveria ser único para todo o funcionalismo público brasileiro.

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Teves
Teves
12/08/2026 23:38

Tido dentro do esperando nas FFAA, quem gosta de praça é pombo !

Jose
Jose
12/08/2026 23:19

Alguém quer perguntar algo para um oficial general? Tipo: o país vai bem ?

Jose
Jose
12/08/2026 23:12

Brasil, salário e vantagens!

Menino Maluquinho
Menino Maluquinho
12/08/2026 23:10

Como disse em comentários anteriores: NÃO DEVERIA SER UTILIZADO PARA CALCULAR A MÉDIA SALARIAL DOS MILITARES OS PROVENTOS DESSES OFICIAIS… É ATÉ COVARDIA!
Assim como eles fazem questão de separar os oficiais do graduados… ISSO DEVERIA ACONTECER, TAMBÉM, NOS CÁLCULOS DA REMUNERAÇÃO.

Sub-MB, traído
Sub-MB, traído
12/08/2026 22:09

Como dizia um provérbio popular chinês: “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Paulo marujo
Paulo marujo
13/08/2026 08:14
Responder para  Sub-MB, traído

A cúpula nunca tiveram compaixão dos praças, pois todas as mudanças que houveram na previdência dos militares nunca fora prejudicados, até porque são os mesmos que fazem as reformas…fato!

Robson Augusto

Robson Augusto

Editor da Revista Sociedade Militar - Militar da reserva remunerada, jornalista e cientista social. Especialista em inteligência e marketing. Escreve sobre militares, geopolítica, tecnologia militar, forças armadas, polícia militar, segurança pública em geral e artes marciais, como Jiu-jitsu e MMA. Análises sobre geopolítica e política brasileira. Autor do livro Militares pela Cidadania