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Guerra híbrida e zona cinza: a nova cara da Doutrina Militar de Defesa

Entenda como a nova Doutrina Militar de Defesa (DMiD) prepara o Brasil para guerra híbrida, ameaças na Zona Cinza e conflitos multidomínio.

Guerra híbrida e zona cinza: a nova cara da Doutrina Militar de Defesa
Representação conceitual dos conflitos multidomínio e da guerra híbrida na nova Doutrina Militar de Defesa. Imagem artificial

A Defesa nacional expandiu sua fronteira em 2026. Aprovada pela Portaria GM-MD nº 3.746, de agosto de 2025, a Doutrina Militar de Defesa (DMiD) trata de assuntos como guerra híbrida e zona cinza.

O documento elaborado pelo Ministério da Defesa surge num momento em que a competição sistêmica entre potências transforma o ambiente internacional, tornando as ameaças aos interesses nacionais cada vez mais difusas e atuantes em múltiplos domínios.

Entre as inovações mais relevantes, destaca-se o aprofundamento sobre os conflitos híbridos e a chamada “Zona Cinza”.

O contínuo de competição e o conceito de Zona Cinza na Doutrina Militar de Defesa

A doutrina brasileira rompe com a visão clássica e simplista que divide as relações internacionais apenas entre “paz” ou “guerra”.

Introduz-se agora o conceito de Contínuo de Competição, que reconhece a natureza fluida, híbrida e multifacetada das interações entre Estados e atores não estatais.

Nesse espectro, a Zona Cinza emerge como uma área de ambiguidade em que a competição ocorre abaixo do limiar do conflito armado convencional.

É nesse espaço incerto – nem preto nem branco – que as regras e alianças se tornam fluidas, dificultando a identificação clara da origem das agressões.

Estratégias híbridas, sincronização e negação plausível

Segundo a nova doutrina, as ameaças híbridas (ou guerra híbrida) são ações coordenadas que visam atingir as vulnerabilidades de um Estado, focando especialmente em sua sociedade e instituições.

O diferencial da estratégia híbrida é a sincronização. Combinam-se atividades não militares com operações de informação, guerra cibernética, ações irregulares e até combate convencional.

O objetivo central da Guerra Híbrida é manter as hostilidades abaixo do nível que justificaria uma resposta militar de larga escala. Esse escamoteamento permite ao agressor a “negação plausível” de suas intenções.

Busca-se, assim, a desestabilização ou manipulação sistêmica do Estado-alvo sem que se cruze a linha da violência aberta.

Ferramentas de desestabilização: da desinformação ao lawfare

A gama de meios utilizados em ações híbridas é vasta. A doutrina cita explicitamente o uso de propaganda, desinformação, subversão, sabotagem e interferência em processos políticos. Além disso, destaca-se o uso de ferramentas econômicas, financeiras e biológicas.

Um ponto de atenção para os militares é a judicialização dos conflitos, ou lawfare. A doutrina alerta que atores armados, especialmente os não estatais, utilizam até o aparato judicial do país, como cortes e tribunais.

Denúncias (mesmo que infundadas) de crimes de guerra e violações de direitos humanos são forjadas para cercear o uso dos meios coercitivos estatais, enfraquecer o apoio da opinião pública e intimidar comandantes.

Ambiente multidomínio, o novo desafio da Doutrina Militar de Defesa

Para enfrentar essa realidade, o Brasil adota a visão de Ambiente Multidomínio. A defesa agora exige coordenação sinérgica em cinco áreas:

  • marítima,
  • terrestre,
  • aérea,
  • espacial e
  • eletromagnético-cibernético-cognitiva.

A DMiD de 2025 deixa claro que o Brasil, por sua relevância em recursos naturais e posição econômica, é partícipe potencial dessas disputas, mesmo que alheio à sua vontade.

O preparo das Forças Armadas, portanto, não se limita mais apenas ao combate tradicional, mas à capacidade de moldar o ambiente de segurança e responder com flexibilidade a ameaças que começam no campo da informação e da mente humana muito antes do primeiro tiro ser disparado.

Estudo de caso: as agressões virtuais a sistemas do Governo brasileiro

A aplicação prática desses conceitos já é visível no cenário nacional recente.

No domínio cibernético, os crescentes ataques virtuais direcionados às infraestruturas do governo federal exemplificam agressões na Zona Cinza.

Exemplos disso foram as recentes invasões em massa que paralisaram sistemas críticos de mais de dez ministérios e órgãos do Poder Executivo.

Trata-se de ações assimétricas e de difícil rastreio que visam desestabilizar a máquina pública e testar a resiliência do Estado sem a necessidade de um confronto armado convencional.

O uso da propaganda para a erosão da soberania nacional

Paralelamente, no ambiente cognitivo-informacional, redes organizadas promovem campanhas de desinformação focadas na gestão ambiental e no controle territorial da Amazônia.

Esse uso estratégico da propaganda busca desgastar a autoridade estatal e a imagem internacional das Forças Armadas na proteção de recursos estratégicos.

Nesta área, uma amostra foi a disseminação sistemática de campanhas de desinformação (fake news) operadas por redes organizadas em torno da exploração e conservação de recursos naturais no bioma amazônico.

Trata-se de um exemplo claro de guerra híbrida, em que o objetivo não é a conquista militar de um território, mas a manipulação da opinião pública e a gradual erosão da soberania nacional.

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JB Reis

JB Reis

Formado em Desenho Industrial pela UEMG, militar da reserva da Força Aérea Brasileira, onde adquiriu profunda experiência em gestão administrativa e logística no setor patrimonial. Escreve principalmente sobre vida militar, defesa, segurança e geopolítica. Sugestões de pautas: johanoeo@gmail.com Mais artigos em https://linktr.ee/veteranistao