Uma parceria industrial da indústria brasileira de defesa ganhou um componente inesperado. A Empresa Nacional de Aeronáutica do Chile (ENAER), que mantém acordos com a Embraer, participa de um projeto que pode transformar a relação entre as duas fabricantes.
A iniciativa chama atenção por envolver justamente um dos maiores sucessos militares do Brasil: o A-29 Super Tucano.
E a comparação não surgiu de especulações. Foi a própria Força Aérea chilena que apontou o modelo brasileiro como referência para uma futura aeronave de fabricação nacional, levantando questionamentos sobre até onde pode avançar a cooperação entre empresas que poderão disputar o mesmo mercado.
Chile usa Super Tucano como referência oficial para novo avião militar
Em abril de 2026, a Força Aérea do Chile anunciou um acordo com a Armada e a ENAER para estudar o desenvolvimento de um turboélice multipropósito.
Em junho, as instituições formalizaram a contratação dos estudos de engenharia e viabilidade econômica do Sistema Turbohélice Multipropósito (STM).
A proposta busca ampliar a autonomia tecnológica chilena e desenvolver uma aeronave destinada à Força Aérea e à Aviação Naval. O projeto, entretanto, ainda não possui protótipo operacional nem produção em série confirmada.
ENAER mantém acordos industriais ligados ao próprio avião brasileiro
O aspecto mais sensível está na relação comercial entre as fabricantes.
Em 2024, Embraer e ENAER anunciaram uma parceria industrial envolvendo fabricação de componentes aeronáuticos e serviços relacionados ao Super Tucano, ao cargueiro C-390 Millennium e à aviação comercial.
O entendimento também prevê que a empresa chilena atue como centro de manutenção dos 22 A-29 da Força Aérea do Chile.
Os acordos divulgados abrangem atividades industriais e de manutenção, mas não anunciam autorização para reproduzir o projeto do avião brasileiro. Também não existem evidências públicas de plágio industrial ou contestação formal da Embraer.
Ainda assim, surge uma questão estratégica: uma empresa que integra a rede de parceiros da fabricante brasileira poderá, no futuro, oferecer uma aeronave com capacidades comparáveis às de um de seus produtos militares mais conhecidos.
Delegação militar brasileira conhece protótipo de programa de US$ 142 milhões
Em 13 de outubro, uma delegação de 37 integrantes da Escola Superior de Guerra (ESG) do Brasil visitou as instalações da ENAER, em Santiago.
O grupo, liderado pelo general de divisão Alexandre Oliveira Cantanhede Lago, conheceu setores de fabricação, motores, sistemas aeronáuticos e materiais compostos. Durante a visita, também conheceu o protótipo do T-40 Newen.
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Segundo a comunicação oficial da ENAER, a atividade integrou um programa acadêmico de cooperação bilateral em defesa, sem anúncio de negociações para aquisição de aeronaves.
O T-40 faz parte de um investimento de aproximadamente US$ 142 milhões, destinado a 33 aviões e sistemas integrados de treinamento. Os primeiros ensaios de voo estão previstos para 2027.
Embora seja diferente do futuro STM, o Newen demonstra o esforço do Chile para desenvolver capacidade própria de projetar e fabricar aeronaves militares.
Presença chilena no Atlântico Sul reacende controvérsia sobre as Malvinas
O avanço da indústria de defesa chilena ocorre em uma região marcada por disputas territoriais e interesses estratégicos.
Em outubro, os planos de estabelecer uma rota comercial entre Punta Arenas e as Ilhas Malvinas voltaram a provocar tensões com a Argentina. O cargueiro chileno Danstar, de 72 metros, pretende abastecer o arquipélago administrado pelo Reino Unido, cuja soberania é reivindicada por Buenos Aires.
O episódio, noticiado pela Revista Sociedade Militar, levou parlamentares chilenos a cobrar garantias para a navegação e medidas diante da possibilidade de uma abordagem argentina.
O Tratado de Paz e Amizade de 1984 reconhece a soberania argentina sobre as águas a leste do limite oriental do Estreito de Magalhães, mas também assegura a livre navegação para embarcações de todas as bandeiras. A controvérsia política gira em torno do abastecimento de um território cuja soberania é disputada por Argentina e Reino Unido.
Não há ligação comprovada entre esse episódio marítimo e o desenvolvimento do novo avião militar chileno.
Embraer já conquistou mercado que o Chile pretende explorar
A distância industrial entre os dois projetos ainda é considerável.
Enquanto a ENAER estuda a viabilidade de sua futura aeronave, a Embraer comercializa um modelo com experiência operacional, capacidade de ataque leve, reconhecimento e treinamento avançado, já selecionado por diversas forças aéreas.
Em outubro, o Paraguai recebeu seu sexto Super Tucano brasileiro. O A-29 também despertou interesse em iniciativas relacionadas ao combate de drones, incluindo uma proposta envolvendo 24 aeronaves para a Ucrânia, ainda sem aquisição oficial concluída.
Para competir nesse segmento, o Chile precisará superar etapas de desenvolvimento, testes, certificação e produção industrial.
Por enquanto, o projeto STM não representa uma ameaça comercial imediata à Embraer. Entretanto, se avançar, poderá acrescentar um elemento até agora ausente na relação entre as duas fabricantes: além de parceiras industriais, Embraer e ENAER poderão passar a disputar espaço no mercado internacional de defesa.